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Análise de artigo Leitura crítica de estudo ou diretriz recente
Via aérea

Cateter nasal de alto fluxo · quando usar antes de intubar

Cateter nasal de alto fluxo · quando usar antes de intubar

Homem de 58 anos, quatro dias de tosse e febre, falando frases curtas, respirando a 34 por minuto, com a saturação em 88% mesmo com máscara com reservatório. Em algum plantão você vai estar diante desse paciente com duas ideias na cabeça: intubar já ou tentar um suporte que o mantenha respirando sozinho. O cateter nasal de alto fluxo ocupa justamente esse meio. A pergunta que decide o plantão é quem pode ficar nele, e por quanto tempo você aceita esperar.

O que o alto fluxo faz e para quem serve

O cateter nasal de alto fluxo entrega gás aquecido e umidificado, com fluxo e fração inspirada de oxigênio ajustados separadamente. Por isso o paciente tolera fluxos que uma máscara comum não entregaria, e a concentração de oxigênio que chega à via aérea fica mais previsível.

A indicação com respaldo de diretriz é a insuficiência respiratória hipoxêmica aguda sem hipercapnia. É nesse cenário que o alto fluxo disputa o lugar do oxigênio comum e da ventilação não invasiva, e é por isso que a primeira conta a fazer é a gasometria: sem CO2 alto, o alto fluxo entra como primeira opção. Com CO2 alto e acidemia, a conversa muda, como mostra a linha da hipercapnia na tabela a seguir.

O que as diretrizes vigentes recomendam

A diretriz mais recente é a da American Thoracic Society (ATS) publicada em junho de 2026, que atualizou a de 2017 e passou a tratar o alto fluxo. A da European Respiratory Society (ERS), de 2022, trata especificamente do alto fluxo.

Alto fluxo, ventilação não invasiva e oxigênio comum na hipoxemia aguda
CenárioATS 2026ERS 2022
Hipoxemia aguda de novoRecomenda alto fluxo em vez de oxigênio comum (forte, certeza moderada). Sugere ventilação não invasiva e CPAP em vez de oxigênio comum (condicional, certeza baixa). Sem recomendação a favor ou contra alto fluxo, CPAP ou ventilação não invasiva entre siOito recomendações condicionais, que favorecem o alto fluxo sobre o oxigênio convencional e sobre a ventilação não invasiva na insuficiência respiratória hipoxêmica
Hipercapnia agudaRecomenda ventilação não invasiva (forte, certeza moderada). Sugere alto fluxo como alternativa se a acidemia for leve, por exemplo pH acima de 7,25, com monitorização e passagem rápida para a ventilação não invasiva (condicional, certeza baixa)Na DPOC com falência ventilatória hipercápnica, sugere tentar a ventilação não invasiva antes do alto fluxo
Pré-oxigenação para intubarRecomenda alto fluxo ou ventilação não invasiva em vez de oxigênio comum (forte, certeza moderada). Sem recomendação entre os doisNão verificada neste texto, pois só o resumo da publicação foi aberto

Infográfico Aevora, elaborado a partir de Goel et al., ATS, AJRCCM, 2026, e de Oczkowski et al., ERS, European Respiratory Journal, 2022 (resumo da publicação).

As duas diretrizes concordam no que importa para o plantão. Na hipoxemia aguda sem hipercapnia, o alto fluxo é a primeira escolha de suporte acima do oxigênio comum. A ATS de 2026 não escolhe entre alto fluxo e ventilação não invasiva e diz que a decisão depende das características do paciente, da experiência de quem opera e dos recursos do serviço.

O texto da ATS acrescenta o limite que dá sentido ao título: qualquer suporte não invasivo exige monitorização próxima para reconhecer a falha cedo, e pode atrasar a intubação. Paciente que precisa de fluxo e FiO2 altos deve ficar onde possa ser vigiado de perto, e o serviço deve ter critérios de intubação e um caminho de escalada definidos.

O que os estudos FLORALI e HENIVOT ensinam, só como contexto

As recomendações acima se apoiam em conjuntos de ensaios, e os dois estudos abaixo ajudam a enxergar o que o alto fluxo entrega e o que ele deixa sem resposta. Nenhum dos dois, sozinho, sustenta uma conduta.

Dois ensaios que moldaram a prática
EstudoQuem entrou e o que comparouO que mostrou
FLORALI, 2015310 pacientes sem hipercapnia, com insuficiência respiratória hipoxêmica e PaO2/FiO2 de 300 mmHg ou menos: alto fluxo (106), máscara comum (94) e ventilação não invasiva (110)Intubação em 28 dias de 38%, 47% e 50%, sem diferença significativa (P = 0,18). Dias livres de ventilador de 24, 22 e 19 (P = 0,02). Mortalidade em 90 dias maior com máscara comum (razão de risco 2,01) e com ventilação não invasiva (2,50) do que com alto fluxo
HENIVOT, 2021109 pacientes com COVID-19 e hipoxemia moderada a grave: capacete de ventilação não invasiva (54) contra alto fluxo a 60 L/min (55)Dias livres de suporte respiratório sem diferença (mediana de 20 contra 18, P = 0,26). Intubação de 30% contra 51% (desfecho secundário). Mortalidade hospitalar de 24% contra 25%

Infográfico Aevora, elaborado a partir de Frat et al., NEJM, 2015, e Grieco et al., JAMA, 2021. O desfecho principal do FLORALI, a intubação, não diferiu entre os grupos, e a diferença de mortalidade veio de análise secundária. O HENIVOT incluiu só pacientes com COVID-19, e a diferença de intubação veio de desfecho secundário.

O FLORALI não provou que o alto fluxo evita intubação. O sinal mais citado dele, a menor mortalidade, apareceu fora do desfecho principal. No HENIVOT, menos pacientes foram intubados com o capacete de ventilação não invasiva (30% contra 51%), mas esse foi um desfecho secundário, restrito à COVID-19, e os dias livres de suporte foram iguais. Por isso a ATS de 2026 não elege um vencedor entre os suportes não invasivos na hipoxemia aguda.

O índice ROX · como saber que o alto fluxo está falhando

O índice ROX é a saturação de oxigênio dividida pela FiO2, dividida pela frequência respiratória. Ele junta oxigenação e esforço respiratório num número que se calcula à beira do leito e se repete.

Cortes do índice ROX nas primeiras 12 horas de alto fluxo
ROX a partir do qual o risco de intubação foi menor, às 2, 6 e 12 horas
4,88
ou mais
ROX que predisse falha do alto fluxo, às 2, 6 e 12 horas
2,85 · 3,47 · 3,85
abaixo destes valores
Pacientes intubados na coorte de validação
68
de 191 (35,6%)

Infográfico Aevora, elaborado a partir de Roca et al., AJRCCM, 2019. Coorte prospectiva observacional de pacientes com pneumonia em alto fluxo. Área sob a curva ROC de 0,679 às 2 horas, 0,703 às 6 e 0,759 às 12.

No estudo de validação, o ROX de 4,88 ou mais às 2, 6 ou 12 horas se associou a menor risco de intubação, com razão de risco de 0,434, 0,304 e 0,291. Valores abaixo de 2,85, 3,47 e 3,85 nessas três horas predisseram a falha do alto fluxo. Os autores propuseram, em carta posterior, repetir a medida em 1 a 2 horas quando o valor de 12 horas ficar entre 3,85 e 4,88. O peso maior no índice vem da relação saturação sobre FiO2, mais que da frequência respiratória.

O estudo parte da premissa de que, durante o alto fluxo, a intubação não deve ser atrasada. O número serve para reconhecer cedo o paciente que não vai melhorar.

Os limites

O ROX nasceu de uma coorte observacional de pneumonia, com 191 pacientes na validação, e a acurácia dele no começo é modesta: a área sob a curva era de 0,679 às 2 horas e só chegou a 0,759 às 12. Isso quer dizer que, nas primeiras horas, o índice ainda erra com frequência, e que a tendência ao longo das horas informa mais que um valor isolado. Nas partes da diretriz da ATS lidas para este texto, o ROX não aparece como critério recomendado de intubação. Ele é uma ferramenta de apoio ao julgamento, e a decisão continua clínica: esforço respiratório, nível de consciência, estabilidade hemodinâmica e a trajetória da oxigenação.

Os ensaios têm limites próprios. O FLORALI foi aberto e teve intubação como desfecho principal sem diferença. O HENIVOT incluiu só COVID-19. As diretrizes não definem, nos trechos lidos, um fluxo e uma FiO2 iniciais universais, e por isso os alvos de ajuste seguem o protocolo do serviço.

Há ainda o risco que a ATS descreve: se o esforço inspiratório permanece alto, o paciente pode sofrer lesão pulmonar autoinfligida, e o suporte não invasivo pode empurrar a intubação para tarde demais. Insistir no alto fluxo para evitar a intubação é o erro que o monitoramento existe para impedir.

Na prática do plantão

Hipoxemia aguda, em ordem
  1. 1
    Gasometria e gravidadePaCO2 e pH decidem o caminho. Parada iminente, instabilidade grave ou via aérea comprometida pedem intubação imediata, sem tentativa de suporte.
  2. 2
    Sem hipercapnia, alto fluxoAlto fluxo em vez de oxigênio comum, em local onde o paciente possa ser vigiado de perto.
  3. 3
    Calcular o ROXSaturação sobre FiO2, dividida pela frequência respiratória, às 2, 6 e 12 horas de alto fluxo, e antes disso se piorar.
  4. 4
    Ler a tendênciaROX de 4,88 ou mais sustentado favorece seguir. Abaixo de 2,85, 3,47 e 3,85 nas três horas, a falha é provável. Entre os dois, reavaliar em 1 a 2 horas.
  5. 5
    Com hipercapnia e acidemia, ventilação não invasivaAlto fluxo só como alternativa em acidemia leve, com ventilação não invasiva pronta.
  6. 6
    Intubar sem atrasoFalha do suporte, esforço que não cede ou piora clínica. Na pré-oxigenação, alto fluxo ou ventilação não invasiva superam o oxigênio comum.
Alto fluxo não adia intubação necessária Hipoxemia sem hipercapnia · alto fluxo antes do oxigênio comum ROX é apoio ao julgamento, e a tendência pesa mais que o valor isolado

O cateter nasal de alto fluxo é a primeira escolha de suporte na insuficiência respiratória hipoxêmica aguda sem hipercapnia, pela ATS de 2026 e pela ERS de 2022, desde que o paciente fique sob vigilância próxima. O ROX acompanha a resposta nas primeiras 12 horas, e o paciente que não melhora, ou que mostra esforço respiratório sustentado, é intubado sem esperar que o número feche a decisão.

Simulador de Pronto-Socorro

Agora é a sua vez de atender

Homem de 58 anos, com pneumonia, chega taquipneico e dessaturado apesar da máscara com reservatório. Você vai escolher o suporte, calcular o ROX nas primeiras horas e decidir a hora de intubar.

Atender o caso →
Dr. Hélio Pires
Dr. Hélio Pires
Cardiologista

A escolha do suporte respiratório na insuficiência respiratória aguda, do oxigênio comum à intubação, é tema do curso de Urgências e Emergências da Aevora.

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Conteúdo de caráter educacional, dirigido a médicos e estudantes de medicina. As análises publicadas neste blog servem de apoio ao estudo e não substituem o julgamento clínico, a avaliação presencial do paciente nem as diretrizes oficiais das sociedades médicas.