← Voltar ao blog
Fundamentos O básico bem explicado, para quem ainda está construindo a base
Gastroenterologia

Hemorragia digestiva alta · o Glasgow-Blatchford, a transfusão que espera e a endoscopia que não espera

Hemorragia digestiva alta · o Glasgow-Blatchford, a transfusão que espera e a endoscopia que não espera

A hemorragia digestiva alta chega de dois jeitos: a melena que o paciente descreve com constrangimento e a hematêmese que assusta todo mundo. Nos dois, a primeira hora tem três decisões que não dependem da endoscopia: se ele pode ir para casa, quanto sangue repor, e se a causa é varicosa. O que muda o desfecho está na ordem em que essas decisões são tomadas.

Quem pode ir para casa

Escore de Glasgow-Blatchford
VariávelFaixaPontos
Ureia sanguínea (nitrogênio ureico, mg/dL)18,2 a 22,32
22,4 a 27,93
28 a 69,94
70 ou mais6
Hemoglobina no homem (g/dL)12 a 12,91
10 a 11,93
Abaixo de 106
Hemoglobina na mulher (g/dL)10 a 11,91
Abaixo de 106
Pressão sistólica (mmHg)100 a 1091
90 a 992
Abaixo de 903
Frequência cardíaca100 ou mais1
MelenaPresente1
SíncopePresente2
Doença hepáticaPresente2
Insuficiência cardíacaPresente2

Infográfico Aevora, elaborado a partir de Blatchford et al., The Lancet, 2000. O nitrogênio ureico em mg/dL corresponde à ureia dividida por 2,14. Escore de 0 a 23.

O escore foi desenhado para uma pergunta só: este paciente vai precisar de transfusão, endoscopia terapêutica ou cirurgia? A validação internacional de 2017, com 3.012 pacientes, confirmou que o escore de 0 ou 1 identifica quem pode ser manejado fora do hospital, com menos de 1% de necessidade de intervenção, e a diretriz americana de 2021 adotou esse corte. Acima disso, o escore ordena a fila da endoscopia e da terapia intensiva, sem definir sozinho a conduta.

A transfusão que espera

Villanueva, 2013 · restritivo contra liberal na hemorragia digestiva alta
Pacientes randomizados
921
com hemorragia digestiva alta
Sobrevida em 45 dias, limiar de 7 g/dL
95
%
Sobrevida em 45 dias, limiar de 9 g/dL
91
%
Ressangramento, restritivo contra liberal
10
% contra 16%

Infográfico Aevora, elaborado a partir de Villanueva et al., New England Journal of Medicine, 2013. O ensaio excluiu o sangramento maciço com choque; nele, a transfusão segue a hemodinâmica, sem esperar a hemoglobina.

O ensaio mostrou algo que a intuição não previa: transfundir mais matou mais, sobretudo no cirrótico, em que o volume transfundido eleva a pressão portal e reabre a variz. O limiar é hemoglobina de 7 g/dL, e de 8 em quem tem doença cardiovascular. A exceção é o paciente em choque hemorrágico, que recebe sangue pela hemodinâmica, sem esperar o resultado.

Varicosa ou não: a pergunta que muda as drogas

Antes da endoscopia
MedidaNão varicosa, ou causa desconhecidaSuspeita de varizes (cirrose, etilismo, estigmas de hepatopatia)
Inibidor de bomba de prótonsVenoso, em bolus, antes da endoscopia. Reduz a necessidade de terapia endoscópicaTambém, até a endoscopia definir a causa
VasoativoSem indicaçãoTerlipressina ou octreotida, antes da endoscopia, por 2 a 5 dias
AntibióticoSem indicaçãoCeftriaxona por até 7 dias. Reduz infecção, ressangramento e mortalidade
Eritromicina antes da endoscopia250 mg venosos, 30 a 90 minutos antes, esvazia o estômago e melhora a visãoIgual
Prazo da endoscopiaEm até 24 horasEm até 12 horas
Anticoagulante e antiagreganteReverter o anticoagulante no sangramento grave. Manter a aspirina de prevenção secundária ou retomar cedo, porque suspender aumenta evento cardiovascularIgual

Infográfico Aevora, elaborado a partir de Laine et al., American Journal of Gastroenterology, 2021. A endoscopia antes de 6 horas, no paciente estável, não reduziu mortalidade em ensaio randomizado; a estabilização vem antes.

Na prática do plantão

Da chegada à endoscopia
  1. 1
    Dois acessos, monitor, tipagemSangue tipado e reservado. Cristaloide para a hipotensão, sem excesso: no cirrótico, cada litro a mais é pressão portal a mais.
  2. 2
    Calcule o Glasgow-BlatchfordUreia, hemoglobina, pressão, frequência, melena, síncope, fígado e coração. Zero ou um com endoscopia ambulatorial garantida vai para casa. O resto fica.
  3. 3
    Transfunda pelo limiar, ou pelo choqueHemoglobina abaixo de 7, ou de 8 no cardiopata. Choque hemorrágico recebe sangue pela hemodinâmica, com protocolo de transfusão maciça se precisar.
  4. 4
    Decida se é varicosaCirrose conhecida, etilismo, aranhas vasculares, ascite, circulação colateral. Na suspeita, terlipressina ou octreotida e ceftriaxona agora, antes da endoscopia.
  5. 5
    Inibidor de bomba de prótons, eritromicina e endoscopia no prazoBolus venoso do inibidor. Eritromicina 30 a 90 minutos antes. Endoscopia em 24 horas, ou em 12 se varicosa, com o paciente estável.
  6. 6
    Depois da endoscopiaÚlcera com sangramento ativo ou vaso visível: inibidor em dose alta por 72 horas. Pesquisar e tratar Helicobacter pylori. Retomar a aspirina de prevenção secundária assim que a endoscopia confirmar a hemostasia, no mesmo dia e no máximo em 3 a 5 dias, se foi suspensa.
Cirrótico · vasoativo e antibiótico antes da endoscopia Transfusão a partir de 7 g/dL, sem choque Glasgow-Blatchford 0 ou 1 · pode ir para casa

A hemorragia digestiva alta tem uma ordem que vale decorar: estabilizar sem exagerar, estratificar com o escore, transfundir pelo limiar, decidir se é variz, e só então a endoscopia. Quem inverte a ordem e corre para o endoscópio com o paciente instável, ou transfunde para deixar a hemoglobina bonita, faz o que os ensaios mostraram que piora.

Simulador de Pronto-Socorro

Agora é a sua vez de atender

Homem de 64 anos, com fezes pretas há dois dias e um desmaio no banheiro. Toma aspirina e anti-inflamatório. Você vai calcular o escore, decidir a transfusão pela regra certa, descobrir se é varicosa e organizar a endoscopia no prazo.

Atender o caso →
Dr. Hélio Pires
Dr. Hélio Pires
Cardiologista

Sangramento digestivo, do choque hemorrágico à endoscopia, é tema de aula e de simulação no curso de Urgências e Emergências da Aevora.

Curso de Urgências e Emergências →
Veja também

Acompanhe a Aevora para conteúdo diário de emergência, cardiologia e terapia intensiva.

Conteúdo de caráter educacional, dirigido a médicos e estudantes de medicina. As análises publicadas neste blog servem de apoio ao estudo e não substituem o julgamento clínico, a avaliação presencial do paciente nem as diretrizes oficiais das sociedades médicas.