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Fundamentos O básico bem explicado, para quem ainda está construindo a base
Distúrbios hidroeletrolíticos

Hipercalemia no ECG e o tratamento · o cálcio vem antes de qualquer conta

Hipercalemia no ECG e o tratamento · o cálcio vem antes de qualquer conta

A hipercalemia mata de um jeito silencioso: o paciente reclama de fraqueza, o eletrocardiograma parece apenas estranho, e alguns minutos depois o ritmo vira uma onda senoidal e a pressão some. O tratamento tem três etapas com nomes simples, estabilizar, deslocar e remover, e a primeira delas cabe em dez minutos e não depende de nenhum resultado de laboratório.

O que a hipercalemia faz com o traçado

A sequência clássica no eletrocardiograma
AlteraçãoO que acontecePotássio em que costuma aparecer
Onda T apiculadaAlta, estreita, simétrica, de base fina. A repolarização ventricular aceleraAcima de 5,5 a 6,5 mEq/L
PR longo e P achatadaA condução atrial e atrioventricular lentifica. A onda P diminui até sumir6,5 a 7,5 mEq/L
QRS largoA despolarização ventricular lentifica. O QRS ganha morfologia bizarra, sem padrão de bloqueio de ramoAcima de 7 a 8 mEq/L
Onda senoidalQRS e T se fundem. É o passo anterior à fibrilação ventricular e à assistoliaAcima de 8 a 9 mEq/L

Infográfico Aevora, elaborado a partir de Long et al., The Journal of Emergency Medicine, 2018. As faixas são aproximadas: a velocidade da subida do potássio, o cálcio, o pH e o sódio mudam o limiar de cada paciente.

A sequência é didática, e a vida real é menos organizada. Há paciente com potássio de 7 e eletrocardiograma quase normal, e há parada por hipercalemia com traçado prévio sem onda T apiculada. O eletrocardiograma tem sensibilidade baixa para a hipercalemia, e por isso ele serve para uma coisa: quando mostra alteração, o cálcio entra na hora. Quando não mostra, o número decide.

Antes de tratar, descarte o falso

Descartar o falso significa recolher nova amostra, sem garrote e com o eletrocardiograma já feito. Se o traçado está alterado, o cálcio não espera a segunda amostra.

As três etapas, e por que a ordem importa

Tratamento da hipercalemia grave · três etapas
EtapaMedidaInício e duraçãoO que faz
1. EstabilizarGluconato de cálcio 10%, 30 mL IV em 10 minutos, ou cloreto de cálcio 10%, 10 mL em 5 minutos, preferido na parada e na peri-parada1 a 3 minutos · 30 a 60 minutosProtege a membrana do miócito. Não baixa o potássio. Repetir se o traçado não melhorar em 5 minutos
2. DeslocarInsulina regular 10 UI IV com 25 g de glicose15 minutos · 4 a 6 horasReduz 0,6 a 1,0 mEq/L. Glicemia capilar a cada 30 minutos nas 2 primeiras horas e de hora em hora até a 6ª hora
2. DeslocarSalbutamol inalatório, 10 a 20 mg30 minutos · 2 a 4 horasReduz 0,5 a 1,0 mEq/L. Dose quatro a oito vezes a da asma, taquicardia esperada
2. DeslocarBicarbonato de sódioLento e fracoSó com acidose metabólica associada. Não substitui a insulina
3. RemoverFurosemida com volume, se há diurese1 horaDepende de função renal preservada
3. RemoverResina de troca ou ligante de potássio oralHorasCiclossilicato de zircônio sódico 10 g VO 3 vezes ao dia por até 72 h na hipercalemia grave, com início em cerca de 1 hora. A resina de poliestireno é lenta e deixou de ser recomendada na fase aguda
3. RemoverHemodiáliseMinutos após iniciarA única remoção rápida e confiável. Indicada na insuficiência renal e na hipercalemia refratária

Infográfico Aevora, elaborado a partir de UKKA, 2026, Clase et al., Kidney International, 2020, e Long et al., 2018. Doses de adulto.

A ordem importa porque cada etapa protege o tempo da seguinte. O cálcio ganha meia hora de segurança para a insulina agir; a insulina e o salbutamol ganham horas para a diálise ser montada. Pular a primeira etapa porque "o potássio vai cair com a insulina" é o erro que produz a parada com a bomba de insulina correndo.

Quatro números que valem decorar
Gluconato de cálcio 10%
30
mL IV, em 10 minutos
Insulina regular
10
UI IV, com 25 g de glicose
Salbutamol inalatório
10
a 20 mg
Glicemia após a insulina
6
horas de vigilância

Infográfico Aevora, elaborado a partir de UKKA, 2026, e Clase et al., 2020. A hipoglicemia depois da insulina é frequente, sobretudo no renal crônico, e a glicose precisa acompanhar.

Na prática do plantão

Do resultado do potássio ao potássio controlado
  1. 1
    Monitor e ECG de 12 derivações na horaPotássio acima de 6,0, ou qualquer valor com sintoma ou traçado alterado, é emergência. Pás coladas se o QRS estiver largo.
  2. 2
    Cálcio se o traçado estiver alteradoGluconato 30 mL em 10 minutos, com o monitor ligado. Repetir se a onda T e o QRS não melhorarem em 5 minutos. Sem alteração no traçado, o cálcio não está indicado, qualquer que seja o potássio, e o tratamento começa pela insulina com glicose.
  3. 3
    Insulina com glicose e salbutamolOs dois juntos, porque somam o efeito. Glicemia capilar antes, depois a cada 30 minutos nas duas primeiras horas e de hora em hora até a sexta hora. Glicose a 10%, 50 mL por hora por 5 horas, se a glicemia antes da insulina estiver abaixo de 126 mg/dL.
  4. 4
    Remoção conforme o rimDiurese presente: furosemida com reposição de volume. Insuficiência renal, oligúria ou potássio que não cede: nefrologia acionada para hemodiálise, sem esperar a segunda dosagem.
  5. 5
    Trate a causa e feche as portasSuspender inibidor da ECA, bloqueador do receptor, espironolactona, anti-inflamatório e suplemento. Potássio de controle em 1 a 2 horas e a cada 4 horas até estabilizar. Se precisar intubar, rocurônio no lugar da succinilcolina.
Traçado alterado · cálcio na hora, em 10 minutos Insulina + salbutamol somam o efeito Renal crônico com potássio que não cede · diálise

A hipercalemia é uma das poucas emergências em que a sequência inteira cabe numa frase: cálcio para proteger, insulina e salbutamol para esconder, diálise ou diurese para tirar. Quem faz nessa ordem, com o monitor ligado e a glicemia vigiada, raramente vê a onda senoidal.

Simulador de Pronto-Socorro

Agora é a sua vez de atender

Homem de 58 anos, renal crônico, chega com fraqueza nas pernas depois de três dias de diarreia. O eletrocardiograma tem um QRS que ninguém gosta de ver. Você vai decidir o que entra primeiro, o que entra junto e quando chamar a diálise.

Atender o caso →
Dr. Hélio Pires
Dr. Hélio Pires
Cardiologista

Distúrbios do potássio, do ECG à diálise, fazem parte do módulo de emergências metabólicas do curso de Urgências e Emergências da Aevora.

Curso de Urgências e Emergências →
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Conteúdo de caráter educacional, dirigido a médicos e estudantes de medicina. As análises publicadas neste blog servem de apoio ao estudo e não substituem o julgamento clínico, a avaliação presencial do paciente nem as diretrizes oficiais das sociedades médicas.