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Sepse e choque

POCUS no choque · o protocolo RUSH à beira do leito

POCUS no choque · o protocolo RUSH à beira do leito

Pressão de 80 por 50, frequência de 120, pele fria e um primeiro litro de soro que não mexeu na pressão. Em algum plantão você vai estar diante desse paciente sem saber se o choque é séptico, cardiogênico, hipovolêmico ou obstrutivo, e cada um pede uma conduta diferente, às vezes oposta. O exame físico ajuda pouco nessa hora. O ultrassom à beira do leito, feito em ordem, responde três perguntas antes do segundo litro.

Por que o ultrassom entra cedo

O choque indiferenciado é aquele em que a causa ainda não está clara depois da história e do exame. Volume é o tratamento do hipovolêmico e do séptico, e piora o cardiogênico e o obstrutivo por embolia. Tamponamento e pneumotórax hipertensivo pedem drenagem, e nenhuma droga substitui o procedimento. Errar o tipo de choque custa tempo e, às vezes, a vida.

O protocolo RUSH (Rapid Ultrasound in SHock), descrito por Perera e colaboradores em 2010, organiza o exame em três partes com nomes de encanamento: a bomba, que é o coração; o tanque, que é o volume dentro e fora dos vasos; e os tubos, que são a aorta e as veias profundas. As diretrizes de ultrassom do American College of Emergency Physicians incluem a avaliação da hipotensão e do choque entre as aplicações centrais do ultrassom de emergência.

As três perguntas do RUSH

O que se olha em cada parte do exame
ParteO que olharO que se procura
1. Bomba · coraçãoJanelas paraesternal, apical, subcostalDerrame pericárdico e colapso do ventrículo direito na diástole; contratilidade do ventrículo esquerdo; ventrículo direito maior que o esquerdo, com septo achatado
2. Tanque · volumeVeia cava inferior, cavidade peritoneal, tóraxCava fina que colaba ou cava larga e parada; líquido livre no abdome e na pleura; deslizamento pleural; linhas B
3. Tubos · vasosAorta abdominal, veia femoral comum, veia poplíteaAneurisma ou dissecção; veia que não colaba sob compressão, sinal de trombose venosa profunda

Infográfico Aevora, elaborado a partir de Perera et al., Emergency Medicine Clinics of North America, 2010, e das recomendações internacionais de ultrassom cardíaco focado (Via et al., 2014) e de ultrassom pulmonar (Demi et al., 2023). As imagens são descritas em texto.

O padrão de cada tipo de choque

Bomba, tanque e tubos nos quatro choques
ChoqueBombaTanqueTubos
HipovolêmicoCoração pequeno e hiperdinâmico, cavidades quase se fechando na sístoleCava fina, que colaba na inspiração; líquido livre no abdome ou no tórax, se o sangramento for internoAneurisma de aorta roto ou dissecção, quando é a fonte
Distributivo · sepseVentrículo esquerdo hiperdinâmico no início, às vezes com função reduzida depoisCava normal ou fina; fonte de infecção possível, como derrame pleural ou líquido peritonealEm geral sem achado
CardiogênicoVentrículo esquerdo dilatado e com contração ruimCava larga, sem variação; linhas B difusas nos dois pulmões; derrame pleuralEm geral sem achado
ObstrutivoDerrame com colapso do ventrículo direito no tamponamento; ventrículo direito dilatado, septo em D, na embolia pulmonarCava larga, sem variação; deslizamento pleural ausente no pneumotóraxVeia femoral ou poplítea incompressível na embolia

Infográfico Aevora, elaborado a partir de Perera et al., 2010. Os padrões se sobrepõem: o séptico com disfunção miocárdica pode parecer cardiogênico, e o paciente pode ter dois choques ao mesmo tempo. O ultrassom se lê junto com a clínica.

Os números que ajudam a ler a cava e a aorta

Três medidas do RUSH
Diâmetro da veia cava inferior, perto do átrio
2
cm separa a cava fina da larga
Colapso da cava na inspiração espontânea
50%
acima disso, pressão de átrio direito provavelmente baixa
Diâmetro da aorta abdominal
3
cm é o limite do aneurisma

Infográfico Aevora, elaborado a partir de Perera et al., 2010. A cava estima a pressão do átrio direito de forma aproximada, e a leitura muda no paciente em ventilação mecânica, com pressão abdominal alta ou com doença do ventrículo direito. Cava larga e parada com ventrículo direito dilatado tem outra leitura que a cava larga do paciente com insuficiência cardíaca crônica.

O que o achado muda na conduta

A embolia pulmonar com instabilidade é o exemplo mais claro. A diretriz de embolia pulmonar da Sociedade Europeia de Cardiologia de 2019 aceita que, no paciente instável com suspeita de embolia e sem condição de ir à angiotomografia, o ecocardiograma à beira do leito mostrando disfunção do ventrículo direito baste para indicar a reperfusão. A trombose venosa profunda proximal vista no ultrassom de compressão reforça o diagnóstico. A mesma diretriz desaconselha volume agressivo nesse paciente, porque o ventrículo direito dilatado piora com a sobrecarga.

Na sepse, a Surviving Sepsis Campaign de 2026 sugere guiar a reposição volêmica por medidas dinâmicas, além do exame físico e das medidas estáticas isoladas. O ultrassom entra aí como parte da reavaliação, junto com o lactato, o enchimento capilar e a resposta da pressão.

O que cada achado manda fazer
  1. 1
    Derrame pericárdico com colapso do ventrículo direitoTamponamento. Drenagem guiada por ultrassom; volume só como ponte.
  2. 2
    Ventrículo direito maior que o esquerdo, septo em D, cava paradaChoque obstrutivo por embolia até prova em contrário. Procure a trombose nas veias femoral e poplítea e pense em trombólise.
  3. 3
    Deslizamento pleural ausente de um lado, com instabilidadePneumotórax hipertensivo provável. Descompressão sem esperar a radiografia.
  4. 4
    Ventrículo esquerdo dilatado e fraco, linhas B difusasCardiogênico. Volume com muita cautela; inotrópico e vasopressor conforme a pressão.
  5. 5
    Coração hiperdinâmico, cava finaHipovolêmico ou distributivo. Volume em alíquotas, com o ultrassom repetido; procure líquido livre e aorta dilatada.
Ventrículo direito dilatado · o segundo litro espera Achado positivo muda a conduta na hora Exame normal não encerra a investigação

Os limites do método

O RUSH depende de quem faz o exame. Janela ruim, paciente obeso, enfisema e curativo abdominal reduzem o que se vê, e a curva de aprendizado existe. Um achado positivo e grosseiro, como o derrame com colapso ou o ventrículo direito maior que o esquerdo, pesa mais que a ausência de achado. O exame também não fecha o diagnóstico da causa: ele classifica o choque, aponta a próxima conduta e se repete depois de cada intervenção.

Na prática do plantão

O RUSH em ordem, no paciente em choque sem causa definida
  1. 1
    Monitor, acesso, oxigênio, glicemia, lactatoO ultrassom entra junto com a ressuscitação, sem atrasá-la.
  2. 2
    BombaSubcostal ou paraesternal: derrame, contratilidade do ventrículo esquerdo, tamanho do ventrículo direito em relação ao esquerdo.
  3. 3
    TanqueVeia cava inferior com a respiração; FAST para líquido livre; pulmão dos dois lados para deslizamento, linhas B e derrame.
  4. 4
    TubosAorta abdominal do diafragma à bifurcação; compressão das veias femoral comum e poplítea dos dois lados.
  5. 5
    Juntar com a clínica e decidirQual dos quatro choques, e a conduta que ele pede.
  6. 6
    RepetirDepois de cada litro, de cada droga e de cada procedimento, para ver se o padrão mudou.
Choque sem causa · ultrassom antes do segundo litro Bomba, tanque e tubos, sempre nessa ordem Reavaliar depois de cada intervenção

O ultrassom à beira do leito tira o choque indiferenciado do escuro em poucos minutos, desde que seja feito em ordem e lido junto com o paciente. Coração, volume e vasos, olhados antes do segundo litro, evitam o soro que afoga o ventrículo direito e o atraso na drenagem que o tamponamento não perdoa.

Simulador de Pronto-Socorro

Agora é a sua vez de atender

Homem de 66 anos, chegou com falta de ar e febre baixa, e a triagem abriu o protocolo de sepse. Depois do primeiro litro, a pressão continua em 80. Você vai fazer o RUSH, ler o coração, a cava e as veias, e decidir antes do segundo litro.

Atender o caso →
Dr. Hélio Pires
Dr. Hélio Pires
Cardiologista

O manejo das primeiras horas do choque é um dos eixos do curso de Urgências e Emergências da Aevora.

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Conteúdo de caráter educacional, dirigido a médicos e estudantes de medicina. As análises publicadas neste blog servem de apoio ao estudo e não substituem o julgamento clínico, a avaliação presencial do paciente nem as diretrizes oficiais das sociedades médicas.