← Voltar ao blog
Cai na prova Tema cobrado com frequência, ancorado na diretriz vigente
Parada cardiorrespiratória

Adrenalina na parada cardiorrespiratória · o que o PARAMEDIC2 realmente mostrou

Adrenalina na parada cardiorrespiratória · o que o PARAMEDIC2 realmente mostrou

A adrenalina está no algoritmo de parada há décadas, e por muito tempo esteve lá sem ensaio randomizado grande que sustentasse o benefício em sobrevida. O PARAMEDIC2, publicado no New England Journal of Medicine em 2018, foi construído exatamente para responder isso.

O que o ensaio fez

Randomizou 8.014 pacientes com parada cardiorrespiratória extra-hospitalar, no Reino Unido, para adrenalina ou placebo durante a ressuscitação. É o maior ensaio já conduzido sobre o assunto, com desfecho primário de sobrevida em 30 dias.

PARAMEDIC2 · os resultados
DesfechoAdrenalinaPlacebo
Sobrevida em 30 dias3,2%2,4%
Retorno de circulação espontânea36,3%11,7%
Sobrevida com desfecho neurológico favorável2,2%1,9%
Sobrevivente com dano neurológico grave31,0%17,8%

Tabela Aevora, elaborada a partir de Perkins et al., NEJM 2018. Desfecho neurológico favorável avaliado pela escala de Rankin modificada de 0 a 3.

O desconforto que o estudo deixou

A adrenalina aumentou a sobrevida, e o efeito foi estatisticamente significativo. Mas o benefício absoluto foi pequeno, de menos de um ponto percentual, e a diferença em sobrevida com bom desfecho neurológico não alcançou significância estatística. Entre os que sobreviveram, a proporção com dano neurológico grave foi maior no grupo da adrenalina.

A leitura honesta é essa: a droga traz mais gente de volta, e parte dessa gente volta com sequela importante. Não é um resultado que se resuma bem em manchete.

Por que a adrenalina continua na diretriz

Porque o ensaio mostrou benefício de sobrevida, porque a alternativa é não ter droga alguma no algoritmo, e porque o efeito no retorno de circulação é grande e consistente. O que mudou foi o peso relativo: a adrenalina deixou de ser a estrela da ressuscitação e voltou para o lugar que a evidência sustenta, atrás das duas intervenções que realmente mudam desfecho.

O que muda desfecho, em ordem de peso
1Compressão torácica de alta qualidade, com mínima interrupção
2Desfibrilação precoce no ritmo chocável
3Tratamento da causa reversível e, só então, a farmacologia

Infográfico Aevora. A ordem reflete a magnitude do efeito demonstrado em cada intervenção.

Por que este tema é cobrado com tanta frequência

Porque é um caso raro em que um ensaio grande obriga a relativizar uma prática consolidada sem eliminá-la. Entre na prova sabendo o desenho do PARAMEDIC2, que ele mostrou aumento de sobrevida em 30 dias, que o efeito no desfecho neurológico favorável não foi significativo, e que a adrenalina permanece recomendada, atrás de compressão e desfibrilação.

Na prática do plantão

Passo a passo na parada
  1. 1
    Compressão de qualidade, jáProfundidade e frequência adequadas, retorno completo do tórax, interrupção mínima. É a intervenção de maior efeito.
  2. 2
    Cheque o ritmo e desfibrile sem demoraEm ritmo chocável, cada minuto de atraso custa sobrevida.
  3. 3
    Adrenalina conforme o algoritmoSem interromper compressão para administrá-la, e sem deixá-la atrasar a desfibrilação.
  4. 4
    Procure causa reversível o tempo todoHipóxia, hipovolemia, distúrbio eletrolítico, tamponamento, pneumotórax hipertensivo, trombose, intoxicação, hipotermia.
  5. 5
    Planeje o pós-parada antes do retornoControle de temperatura, oxigenação e pressão definem boa parte do desfecho neurológico.
Compressão e desfibrilação primeiro Droga não substitui qualidade de RCP Causa reversível · procure sempre
Dr. Hélio Pires
Dr. Hélio Pires
Cardiologista

Parada e ressuscitação são treinadas com simulação no curso de Urgências e Emergências.

Curso de Urgências e Emergências →
Veja também

Acompanhe a Aevora para conteúdo diário de emergência, cardiologia e terapia intensiva.

Conteúdo de caráter educacional, dirigido a médicos e estudantes de medicina. As análises publicadas neste blog servem de apoio ao estudo e não substituem o julgamento clínico, a avaliação presencial do paciente nem as diretrizes oficiais das sociedades médicas.