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Fundamentos O básico bem explicado, para quem ainda está construindo a base
Ventilação mecânica

Ajustes iniciais do ventilador · os seis parâmetros dos primeiros 30 minutos

Ajustes iniciais do ventilador · os seis parâmetros dos primeiros 30 minutos

O tubo passou, a capnografia confirmou, e o ventilador está piscando com os ajustes de fábrica. É o momento em que muita gente aceita o que a máquina propõe e resolve "ver depois". Os primeiros 30 minutos de ventilação definem se o paciente vai receber um volume seguro, uma pressão segura e uma troca gasosa que faça sentido para a doença dele. Seis parâmetros, numa ordem, resolvem quase tudo.

Antes dos números: modo e peso

O modo inicial é o volume controlado, com ciclagem a volume, porque ele garante o volume corrente que você escolheu e mostra a pressão que esse volume produz. Modos a pressão têm o seu lugar, e ele vem depois, quando você conhece a mecânica do paciente.

O peso que entra no ventilador é o peso predito pela altura, porque o tamanho do pulmão acompanha a altura e o sexo, com pouca relação com a balança. Homem: 50 + 0,91 × (altura em cm − 152,4). Mulher: 45,5 + 0,91 × (altura em cm − 152,4). Uma mulher de 1,60 m tem peso predito de 52,4 kg, pese ela 50 ou 100 kg.

Os seis parâmetros

Ajuste inicial, em qualquer paciente adulto
ParâmetroValor inicialPor quê
1. Volume corrente6 a 8 mL/kg de peso predito; 6 no SDRAO volume alto lesa o pulmão, com ou sem SDRA. O ARMA mostrou queda de mortalidade com 6 mL/kg
2. Frequência respiratória12 a 16 por minuto; 10 a 12 no obstrutivoDefine a ventilação-minuto com o volume. É ela que se ajusta pela PaCO₂, com o volume fixo
3. PEEP5 cmH₂O; mais alta no SDRA, pela tabela PEEP e FiO₂Evita o colapso alveolar ao fim da expiração. Zero de PEEP não existe no adulto intubado
4. Fração inspirada de oxigênio100% nos primeiros minutos, reduzida rápido para saturação de 92 a 96%Hiperóxia prolongada faz mal. A FiO₂ desce antes da PEEP
5. Fluxo e tempo inspiratórioFluxo de 40 a 60 L/min, relação inspiração para expiração de 1 para 2; 1 para 3 ou mais no obstrutivoO tempo expiratório curto aprisiona ar. No asmático e no DPOC, a expiração longa é o ajuste que salva
6. Sensibilidade do disparoFluxo de 1 a 3 L/min, ou pressão de 1 a 2 cmH₂O abaixo da PEEPDisparo duro cansa o paciente; disparo frouxo dispara sozinho

Infográfico Aevora, elaborado a partir do posicionamento conjunto AMIB e SBPT de 2025 sobre ventilação mecânica e do ensaio ARMA, 2000. Os valores são o ponto de partida; a gasometria de cerca de 20 minutos e a mecânica do paciente ajustam o resto.

As duas pressões que você mede na primeira hora

Pressão de platô e pressão de distensão
Pressão de platô, com pausa inspiratória
30
cmH₂O é o teto
Pressão de distensão, platô menos PEEP
15
cmH₂O é o teto
PEEP intrínseca, com pausa expiratória
0
é o que se quer no obstrutivo

Infográfico Aevora, elaborado a partir de Amato et al., New England Journal of Medicine, 2015: a pressão de distensão foi a variável da ventilação que mais se associou à mortalidade no SDRA. A pressão de pico depende do tubo e das vias aéreas, e por si não diz o que o alvéolo recebe.

Se o platô passa de 30 ou a pressão de distensão passa de 15, o volume corrente desce, até 4 mL/kg se preciso, e a frequência sobe para compensar. A hipercapnia que resulta é aceita, com pH acima de 7,20, porque ela custa menos que a pressão.

Depois da primeira gasometria

O que a gasometria de 20 minutos manda fazer
  1. 1
    PaCO₂ alta com pH baixoSuba a frequência, até 30 a 35 por minuto. O volume não sobe. No obstrutivo, antes de subir a frequência, confira a PEEP intrínseca: pode ser preciso descer a frequência para dar tempo de expirar.
  2. 2
    PaCO₂ baixaDesça a frequência. Se o paciente dispara acima da frequência programada, o problema é dor, agitação, acidose ou sepse, e a resposta está no paciente, longe do botão.
  3. 3
    Saturação acima de 96% com FiO₂ altaDesça a FiO₂ de 10 em 10 pontos, com a saturação no alvo. A PEEP fica.
  4. 4
    Saturação abaixo de 90% com FiO₂ acima de 60%Suba a PEEP pela tabela, meça o platô depois de cada passo, e procure a causa: SDRA, atelectasia, tubo seletivo, pneumotórax, edema.
  5. 5
    AlarmesPressão de pico máxima 10 cmH₂O acima da observada, volume-minuto mínimo e máximo, apneia, desconexão. Alarme desligado é paciente sem vigilância.
Platô acima de 30 · desce o volume, a PEEP fica PaCO₂ se corrige na frequência FiO₂ desce antes da PEEP

Na prática do plantão

Os primeiros 30 minutos, em ordem
  1. 1
    Altura, sexo, peso preditoAntes de tocar no ventilador. Anote o peso predito na folha, porque é ele que entra em todo cálculo.
  2. 2
    Modo a volume, 6 a 8 mL/kg, frequência 12 a 16Obstrutivo: 10 a 12 e expiração longa. SDRA: 6 mL/kg e PEEP pela tabela.
  3. 3
    PEEP 5, FiO₂ 100% e depois a descer, fluxo 40 a 60, disparo sensívelAlvo de saturação de 92 a 96%.
  4. 4
    Pausa inspiratória e expiratóriaPlatô abaixo de 30, distensão abaixo de 15, PEEP intrínseca zero. Ajuste o que passou.
  5. 5
    Alarmes, sedação e analgesia, cabeceira a 30 graus, radiografiaO tubo 3 a 5 cm acima da carina. Sedação suficiente para o paciente não brigar com a máquina enquanto a mecânica é conhecida.
  6. 6
    Gasometria em cerca de 20 minutosE os ajustes do bloco anterior. Reavaliação a cada mudança e a cada 4 horas.
Peso predito, nunca o da balança Platô e distensão medidos na primeira hora Alarme desligado é paciente sem vigilância

O ventilador não trata a doença; ele ganha tempo para o tratamento agir sem lesar o pulmão no caminho. Seis parâmetros, duas pressões e uma gasometria em cerca de 20 minutos são o mínimo que se deve a quem acabou de ser intubado.

Simulador de Pronto-Socorro

Agora é a sua vez de atender

Mulher de 60 anos, acabou de ser intubada por pneumonia grave. O ventilador está nos ajustes de fábrica. Você vai calcular o peso predito, programar os seis parâmetros, medir as pressões e corrigir pela primeira gasometria.

Atender o caso →
Dr. Hélio Pires
Dr. Hélio Pires
Cardiologista

O ajuste inicial e a leitura das curvas do ventilador são o primeiro módulo do Curso de Ventilação Mecânica da Aevora.

Curso de Ventilação Mecânica →
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Conteúdo de caráter educacional, dirigido a médicos e estudantes de medicina. As análises publicadas neste blog servem de apoio ao estudo e não substituem o julgamento clínico, a avaliação presencial do paciente nem as diretrizes oficiais das sociedades médicas.