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Cai na prova Tema cobrado com frequência, ancorado na diretriz vigente
Emergências alérgicas

Anafilaxia · adrenalina intramuscular primeiro, e tudo o mais depois

Anafilaxia · adrenalina intramuscular primeiro, e tudo o mais depois

A anafilaxia tem um tratamento de primeira linha, e ele é um só. A adrenalina intramuscular reverte o broncoespasmo, o edema de via aérea e a vasodilatação ao mesmo tempo, em minutos, e nenhuma contraindicação absoluta a impede na anafilaxia. O que atrasa a dose, e mata, é a dúvida sobre o diagnóstico e o hábito de começar pelo anti-histamínico.

Reconhecer, inclusive sem urticária

Critérios de anafilaxia · Organização Mundial de Alergia, 2020
1Início agudo, em minutos a horas, com pele ou mucosa acometidas (urticária, prurido, rubor, edema de lábios, língua ou úvula) e ao menos um entre: comprometimento respiratório, queda de pressão ou sintoma de disfunção de órgão, ou sintoma gastrointestinal intenso após alérgeno alimentar.
2Início agudo de hipotensão, broncoespasmo ou acometimento de laringe após exposição a alérgeno conhecido ou provável, mesmo sem qualquer sinal na pele.

Infográfico Aevora, elaborado a partir de Cardona et al., World Allergy Organization Journal, 2020. O segundo critério existe porque cerca de um em cada dez a vinte casos não tem manifestação cutânea, e é neste grupo que a adrenalina mais atrasa.

Os gatilhos mais comuns são alimentos, picada de inseto e medicamentos, com o contraste iodado e os antibióticos à frente no hospital. A ausência de história de alergia não afasta nada: a primeira anafilaxia é, por definição, sem história.

A adrenalina: dose, via e repetição

Adrenalina na anafilaxia
Dose no adulto
0,5
mg IM, solução 1 mg/mL
Dose por peso
0,01
mg/kg, até 0,5 mg
Repetir se não melhorar
5
a 15 minutos depois
Local
1
face anterolateral da coxa

Infográfico Aevora, elaborado a partir de Cardona et al., 2020, e Muraro et al., 2022. A via intramuscular na coxa alcança pico plasmático mais rápido que a subcutânea e que o deltoide.

A adrenalina intravenosa em bolus não tem lugar fora da parada cardíaca: a dose de 1 mg venosa é vinte vezes maior que a intramuscular e produz arritmia e crise hipertensiva. O que existe por via venosa é a infusão contínua, para o paciente que não respondeu a duas ou três doses intramusculares, com monitorização e titulação.

O que entra junto, e o que nunca substitui

Medidas de suporte e adjuvantes
MedidaO que fazPosição na sequência
Decúbito com pernas elevadasDevolve sangue ao coração vazio pela vasodilatação. Levantar bruscamente o paciente hipotenso pode precipitar paradaJunto com a adrenalina. Sentado só se a dispneia exigir
Oxigênio de alto fluxoTrata a hipoxemia do broncoespasmo e do edemaJunto com a adrenalina
Cristaloide, 1 a 2 litros rápidos no adultoRepõe o volume que saiu para o interstício; até um terço do volume circulante sai em minutosLogo após a primeira dose, se há hipotensão
Infusão venosa de adrenalinaPara hipotensão ou broncoespasmo que não cederam a 2 ou 3 doses intramuscularesAnafilaxia refratária, com monitor
Glucagon, 1 a 5 mg IVContorna o bloqueio beta em quem usa betabloqueador e não responde à adrenalinaAnafilaxia refratária em usuário de betabloqueador
Anti-histamínico H1Alivia urticária e prurido. Não trata hipotensão, broncoespasmo nem edema de via aéreaDepois da adrenalina, como conforto
CorticoideNão muda o desfecho agudo, e a prevenção da reação bifásica não foi demonstradaOpcional, depois da adrenalina. Nunca no lugar dela

Infográfico Aevora, elaborado a partir de Cardona et al., 2020, e Shaker et al., Journal of Allergy and Clinical Immunology, 2020.

O parâmetro de prática de 2020 fez uma revisão sistemática atrás de benefício do corticoide e do anti-histamínico na prevenção da reação bifásica e não encontrou. A conclusão prática é dura: a única coisa que reduz a chance de reação bifásica é tratar bem a primeira, com adrenalina cedo.

Via aérea e observação

O edema de língua, de úvula e de laringe progride rápido e responde à adrenalina na maioria dos casos. Quando não responde, a intubação é precoce, com o melhor operador, videolaringoscópio, tubo menor e o kit de cricotireoidostomia aberto: esperar o estridor piorar é perder a janela em que a glote ainda é visível.

Depois da resposta, o tempo de observação depende da gravidade. O parâmetro americano de 2020 sugere observação prolongada para quem teve anafilaxia grave ou precisou de mais de uma dose de adrenalina, sem fixar o número de horas, e aceita alta após uma hora sem sintomas na reação leve que respondeu rápido à primeira dose. A diretriz britânica de 2021 põe os números: ao menos seis horas para quem precisou de duas doses ou já teve reação bifásica, e ao menos 12 horas, ou internação, para a reação grave que precisou de mais de duas doses, para o asmático grave e para quem teve comprometimento respiratório grave. A reação bifásica acontece em uma minoria, e por isso a observação universal de 24 horas deixou de ser recomendada.

Na prática do plantão

Da suspeita à alta
  1. 1
    Reconheça pelos critérios e aplique a adrenalina0,5 mg intramuscular na coxa, no adulto, no primeiro minuto. Na dúvida entre urticária e anafilaxia com sintoma respiratório ou hipotensão, a adrenalina entra: o risco da dose desnecessária é muito menor que o da dose atrasada.
  2. 2
    Deite, oxigene, dê volumePernas elevadas, oxigênio de alto fluxo, acesso calibroso e 1 a 2 litros de cristaloide se houver hipotensão. Monitor e pás por perto.
  3. 3
    Repita em 5 a 15 minutos se não melhorarSegunda e terceira doses intramusculares. Sem resposta, infusão venosa de adrenalina titulada. Em quem usa betabloqueador, glucagon.
  4. 4
    Cuide da via aérea cedoEstridor, voz abafada ou edema de língua que progride apesar da adrenalina: intubação precoce com preparação dupla.
  5. 5
    Observe pelo tempo certo e dê alta com planoTriptase sérica em 1 a 2 horas do início. Anti-histamínico e corticoide depois da adrenalina, se quiser. Alta com plano escrito, orientação sobre o gatilho, adrenalina para autoaplicação onde disponível e encaminhamento ao alergista.
Adrenalina IM no primeiro minuto 0,5 mg na coxa, repetir em 5 a 15 min Anti-histamínico e corticoide nunca substituem a dose

A anafilaxia é uma das emergências em que fazer a coisa certa é simples e fazer a coisa errada é comum. A dose é conhecida, a via é conhecida e o tempo é o primeiro minuto. O que separa o bom atendimento do ruim é a coragem de aplicar a adrenalina antes de ter certeza.

Simulador de Pronto-Socorro

Agora é a sua vez de atender

Mulher de 29 anos chega do restaurante com urticária, lábios inchados e chiado. A pressão está caindo e ela usa propranolol. Você vai reconhecer, aplicar a adrenalina, decidir o que fazer quando a primeira dose não basta e definir a alta.

Atender o caso →
Dr. Hélio Pires
Dr. Hélio Pires
Cardiologista

Anafilaxia e via aérea difícil por edema são cenários de simulação do curso de Urgências e Emergências da Aevora.

Curso de Urgências e Emergências →
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Conteúdo de caráter educacional, dirigido a médicos e estudantes de medicina. As análises publicadas neste blog servem de apoio ao estudo e não substituem o julgamento clínico, a avaliação presencial do paciente nem as diretrizes oficiais das sociedades médicas.