Homem de 71 anos, tontura que virou quase desmaio, suor frio, pressão de 82 por 48 e pulso de 36 no monitor. Em algum plantão você vai receber esse paciente com a família em volta e três perguntas na cabeça ao mesmo tempo: atropina, marcapasso ou os dois, e em que ordem. A prova cobra a mesma sequência, e o algoritmo da AHA de 2025 responde com poucas caixas e quatro números que valem decorar.
Primeiro, decidir se a bradicardia é a causa do problema
A diretriz de suporte avançado de vida da AHA de 2025 usa o corte de frequência cardíaca abaixo de 50 por minuto, o mesmo que a diretriz de bradicardia ACC/AHA/HRS de 2018 adotou no lugar do antigo 60. Bradicardia pode ser achado normal em atleta, em adulto saudável e durante o sono, de modo que a conduta depende do comprometimento cardiopulmonar.
| Sinal | Como reconhecer |
|---|---|
| Hipotensão | Pressão baixa com o pulso lento, pela queda do débito cardíaco |
| Alteração aguda do estado mental | Confusão, sonolência, síncope ou quase síncope |
| Sinais de choque | Pele fria e suada, perfusão ruim, má perfusão de órgãos |
| Dor torácica isquêmica | Desconforto no peito com a frequência baixa |
| Insuficiência cardíaca aguda | Dispneia e congestão que surgiram junto com a bradicardia |
Infográfico Aevora, elaborado a partir da Figura 8 da Parte 9 das diretrizes de suporte avançado de vida da AHA, 2025 (algoritmo de bradicardia com pulso).
Sem nenhum desses sinais, o paciente não precisa de droga nem de marcapasso agora. O algoritmo manda identificar e tratar as causas: sustentar via aérea, respiração e circulação, dar oxigênio se houver indicação, fazer um eletrocardiograma de 12 derivações e observar.
A ordem do algoritmo quando há comprometimento
Com sinais de comprometimento, a primeira parte é suporte: via aérea pérvia e oxigênio, ventilação com pressão positiva se necessário, monitor cardiorrespiratório e acompanhamento do pulso. Se a bradicardia persiste com comprometimento, a droga que abre o tratamento é a atropina.
| Passo | O que fazer |
|---|---|
| Atropina | 1 mg em bolus intravenoso, repetido a cada 3 a 5 minutos, até 3 mg no total |
| Se a atropina não resolve | Marcapasso transcutâneo e/ou infusão de dopamina ou de epinefrina |
| Dopamina | Infusão de 5 a 20 mcg/kg/min, titulada pela resposta e retirada aos poucos |
| Epinefrina | Infusão de 2 a 10 mcg por minuto, titulada pela resposta |
| Em seguida | Considerar consulta com especialista e marcapasso transvenoso |
Infográfico Aevora, elaborado a partir da Figura 8 da Parte 9 das diretrizes de suporte avançado de vida da AHA, 2025. A caixa de doses do algoritmo traz estes valores.
Atropina · primeira droga, com evidência observacional
A atropina mostrou eficácia na bradicardia sintomática em estudos observacionais, e a dose do algoritmo é de 1 mg. Os estudos citados pela diretriz são todos observacionais. Em quem está em parada com ritmo não chocável, a atropina não melhorou a sobrevida no hospital, de modo que ela é droga de bradicardia com pulso e não de parada.
Marcapasso transcutâneo · o que ele faz e o que custa
O marcapasso transcutâneo é feito à beira do leito, de forma rápida e sem procedimento invasivo, e na maior parte das vezes serve de ponte até o cateter transvenoso. É doloroso no paciente consciente, e a tolerância pode exigir sedação. A diretriz reconhece uma dificuldade prática: obter e manter a captura elétrica e a captura mecânica. Confirmar que cada estímulo gera pulso é parte da técnica, e a palpação do pulso, a oximetria, o capnógrafo e o ultrassom são os caminhos que a diretriz cita para isso.
Numa série pré-hospitalar citada pela diretriz, a hipóxia e o ritmo inicial que não era bradicárdico se associaram a falha do marcapasso e a mais mortalidade. A leitura prática é corrigir a causa junto com o marcapasso.
Dopamina e epinefrina · alternativa ao marcapasso
Quando a atropina falha, a diretriz considera razoável tanto o marcapasso quanto outro agente que aumente frequência e pressão. A epinefrina em infusão, e a epinefrina em dose pequena em bolus, ganharam espaço na prática do paciente em periparada, mas faltam estudos de bolus especificamente para bradicardia, e há relato de erro de dose e de efeito hemodinâmico adverso. A dopamina em infusão também aumenta a frequência. Um estudo de viabilidade randomizado em pacientes que falharam com atropina comparou dopamina com marcapasso transcutâneo e não encontrou diferença de sobrevida na alta. A escolha entre marcapasso e infusão depende da experiência da equipe e do material disponível.
Sem acesso venoso
Na bradicardia grave com choque e sem acesso venoso ou intraósseo, o marcapasso transcutâneo imediato pode ser iniciado enquanto o acesso é obtido.
Os números que caem na prova
Infográfico Aevora, elaborado a partir da Figura 8 da Parte 9 das diretrizes de suporte avançado de vida da AHA, 2025. A dopamina vai de 5 a 20 mcg/kg/min.
- 1Frequência abaixo de 50, sem hipotensão, sem alteração mental, sem choque, sem dor torácica, sem insuficiência cardíacaProcurar e tratar a causa, eletrocardiograma de 12 derivações e observação.
- 2Bradicardia com qualquer sinal de comprometimentoVia aérea, oxigênio se houver indicação, monitor e pulso. Pás de marcapasso no leito.
- 3Comprometimento que persisteAtropina 1 mg em bolus, repetida a cada 3 a 5 minutos até 3 mg.
- 4Atropina sem efeitoMarcapasso transcutâneo e/ou infusão de dopamina (5 a 20 mcg/kg/min) ou de epinefrina (2 a 10 mcg por minuto).
- 5Sem melhora com as medidas acima, ou choque que persisteConsultar o especialista e passar para marcapasso transvenoso.
- 6Bradicardia com choque e sem acesso venosoMarcapasso transcutâneo imediato enquanto o acesso é obtido.
A causa também precisa ser tratada
O algoritmo traz uma lista de causas possíveis: isquemia e infarto do miocárdio, drogas e intoxicações (bloqueadores de canal de cálcio, betabloqueadores e digoxina entram como exemplos), hipóxia e distúrbios eletrolíticos como a hipercalemia. A diretriz insiste que a bradicardia pode ser difícil de resolver sem corrigir a causa, e por isso a investigação corre ao mesmo tempo que a estabilização.
A Parte 9 não detalha antídotos específicos de cada intoxicação, e este texto também fica sem eles. Na prática, a lista de medicamentos em uso, o eletrocardiograma, o potássio e a oximetria entram no atendimento desde o início, porque cada um deles aponta para uma das causas do algoritmo.
Os limites
A base de evidência é modesta. A atropina se apoia em estudos observacionais. O marcapasso transcutâneo, em revisão sistemática de 2006 citada pela diretriz, não mostrou benefício sobre o suporte avançado habitual na bradicardia no ambiente pré-hospitalar, e uma análise de subgrupo de um único ensaio sugeriu possível benefício na bradicardia sintomática. O marcapasso transvenoso tem estudos observacionais com taxa de complicação relativamente alta, incluindo infecção de corrente sanguínea e pneumotórax. O único ensaio que comparou droga com marcapasso foi um estudo de viabilidade pequeno.
A própria diretriz aponta o que falta pesquisar: posição das pás e um método confiável de confirmar a captura inicial e a sustentada.
Na prática do plantão
- 1Olhar o paciente antes do númeroHipotensão, confusão, choque, dor torácica ou insuficiência cardíaca aguda definem a conduta mais que a frequência.
- 2Monitor, oxigênio se indicado, acesso e eletrocardiogramaO traçado mostra o tipo de bloqueio e o supra de ST, e a oximetria avisa da hipóxia.
- 3Pás de marcapasso coladasElas ficam prontas desde o início, porque a atropina pode não funcionar.
- 4Atropina 1 mgRepetir a cada 3 a 5 minutos, até 3 mg.
- 5Escolher entre marcapasso e infusãoAnalgesia e sedação para o marcapasso, com captura mecânica conferida no pulso. Dopamina ou epinefrina quando a equipe preferir a droga.
- 6Causa e ponteMedicamentos, potássio, isquemia e hipóxia corrigidos, com especialista chamado cedo para o marcapasso transvenoso.
Bradicardia abaixo de 50 só vira emergência quando vem com hipotensão, alteração mental, choque, dor torácica isquêmica ou insuficiência cardíaca aguda. Nesse caso, o algoritmo da AHA de 2025 manda dar atropina 1 mg, repetir até 3 mg e, se não funcionar, escolher entre marcapasso transcutâneo e infusão de dopamina ou epinefrina, com o transvenoso e o especialista como próximo passo e a causa tratada ao mesmo tempo.
Agora é a sua vez de atender
Homem de 71 anos, tontura, suor frio e pressão de 82 por 48, com frequência de 36 no monitor. O eletrocardiograma mostra bloqueio atrioventricular total. Você vai decidir o que entra primeiro, o que fazer quando a atropina não basta e o que procurar como causa.
Atender o caso →
O atendimento da bradicardia instável, da atropina ao marcapasso, é tema do curso de Urgências e Emergências da Aevora.
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