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Emergências cardiovasculares

Crise hipertensiva · urgência ou emergência, e por que o número na tela decide pouco

Crise hipertensiva · urgência ou emergência, e por que o número na tela decide pouco

A pressão de 220 por 130 na tela do monitor provoca duas reações opostas e igualmente erradas: a de quem corre para a droga venosa e a de quem manda para casa com captopril. A pergunta que resolve o caso não está no número. Está no órgão: há lesão aguda em curso, ou não há? Essa resposta separa a emergência da urgência, e uma terceira categoria, a pseudocrise, é mais comum que as duas juntas.

As três situações, e o que muda em cada uma

Crise hipertensiva · a classificação que define a conduta
1Emergência hipertensiva. Pressão muito elevada com lesão aguda de órgão-alvo: encefalopatia, AVC, síndrome coronariana, edema agudo de pulmão, dissecção de aorta, eclâmpsia, lesão renal aguda, retinopatia grave, anemia hemolítica microangiopática. Droga venosa, monitor, internação.
2Urgência hipertensiva. Pressão muito elevada, em geral acima de 180 por 120, sem lesão aguda; a diretriz brasileira de 2025 passou a chamar de elevação importante da pressão sem lesão aguda de órgão-alvo, com reavaliação em 1 a 7 dias. Droga oral, observação de algumas horas, redução gradual em 24 a 48 horas, reavaliação ambulatorial em dias. Sem droga venosa.
3Pseudocrise. Pressão elevada por dor, ansiedade, retenção urinária, abstinência ou remédio esquecido, sem lesão. Trata-se a causa, e a pressão desce sozinha.

Infográfico Aevora, elaborado a partir da Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025 e da diretriz americana de 2025. O valor da pressão não define a categoria: há emergência com 170 por 110 na gestante e urgência com 230 por 130 no hipertenso crônico.

O que procurar antes de decidir

A busca de lesão de órgão-alvo, em cinco minutos
  1. 1
    CérebroCefaleia intensa com náusea, confusão, sonolência, convulsão, déficit focal, alteração visual. Fundo de olho com papiledema, hemorragias ou exsudatos.
  2. 2
    Coração e aortaDor torácica, dispneia, estertores, terceira bulha, assimetria de pulsos ou de pressão entre os braços, sopro de insuficiência aórtica novo.
  3. 3
    RimOligúria, creatinina que subiu, hematúria, proteinúria.
  4. 4
    GestaçãoPressão de 140 por 90 ou mais com proteinúria, cefaleia, escotomas, dor epigástrica ou plaquetas baixas: pré-eclâmpsia grave até prova em contrário.
  5. 5
    Exames dirigidosECG, creatinina, eletrólitos, hemograma com esquizócitos, urina, troponina e radiografia conforme a suspeita. Tomografia de crânio para todo sintoma neurológico, porque a encefalopatia é diagnóstico de exclusão.
Sintoma neurológico · tomografia antes de baixar a pressão Sem lesão de órgão · sem droga venosa Dor, ansiedade, bexiga cheia · trate a causa primeiro

A tomografia antes de baixar a pressão no sintoma neurológico existe por um motivo: o AVC isquêmico com pressão alta é um cenário em que baixar a pressão faz mal, e ele se parece com a encefalopatia hipertensiva na primeira hora.

Na emergência: quanto baixar, e em quanto tempo

Alvos de redução na emergência hipertensiva
SituaçãoAlvoDrogas de escolha
Regra geral (encefalopatia, lesão renal, retinopatia)Reduzir a pressão arterial média em até 25% na primeira hora; 160 por 100 em 2 a 6 horas; sistólica de 130 a 140 em 24 a 48 horas (a diretriz brasileira de 2025 ainda escreve níveis normais nesse prazo)Nitroprussiato, nicardipina ou labetalol, em bomba, com monitor
Dissecção de aortaSistólica abaixo de 120 e frequência abaixo de 60 em 20 minutosBetabloqueador venoso primeiro (esmolol ou metoprolol), depois nitroprussiato. Nunca o vasodilatador sozinho
Edema agudo de pulmãoRedução rápida da pós-carga, guiada pela dispneiaNitroglicerina venosa, ventilação não invasiva, furosemida se houver congestão de volume
Síndrome coronarianaAliviar a dor sem hipotensãoNitroglicerina, betabloqueador se não houver contraindicação
AVC isquêmicoSó tratar acima de 220 por 120; se for trombolisar, abaixo de 185 por 110 antes e 180 por 105 depoisLabetalol ou nicardipina, redução cautelosa
Hemorragia intracerebralSistólica em torno de 140, sem descer de 130Nicardipina ou labetalol
Pré-eclâmpsia grave e eclâmpsiaAbaixo de 160 por 105, sem hipotensãoHidralazina venosa, labetalol ou nifedipino oral de liberação normal, mais sulfato de magnésio para a convulsão

Infográfico Aevora, elaborado a partir da Diretriz Brasileira de 2025, da diretriz americana de 2025 e da europeia de 2024. Nicardipina e labetalol têm disponibilidade limitada no Brasil, e o nitroprussiato segue como a droga mais usada, com proteção da luz e atenção ao cianeto na infusão prolongada e na insuficiência renal.

O limite de 25% na primeira hora existe porque o hipertenso crônico desloca a curva de autorregulação cerebral para a direita. Uma pressão que seria normal para outra pessoa, em quem vive a 200, é hipoperfusão. Normalizar depressa produz o AVC que se tentava evitar.

O que não fazer

Na prática do plantão

Do número à conduta
  1. 1
    Confirme a medidaManguito certo, paciente sentado, cinco minutos de repouso, os dois braços. Pressão de triagem é a menos confiável do hospital.
  2. 2
    Procure a pseudocriseDor, ansiedade, bexiga cheia, remédio esquecido, cocaína ou abstinência. Trate a causa e meça de novo em 30 minutos.
  3. 3
    Procure a lesão de órgãoNeurológico, cardíaco, aórtico, renal, obstétrico. Exames dirigidos pela suspeita, e tomografia se há sintoma neurológico.
  4. 4
    Sem lesão: oral e reavaliaçãoCaptopril, clonidina ou o anti-hipertensivo que ele deixou de tomar. Observação de horas, alvo em 24 a 48 horas, retorno em dias.
  5. 5
    Com lesão: venoso, monitor e alvo por escritoDroga em bomba, pressão a cada 5 minutos na primeira hora, e o alvo da situação anotado no prontuário: 25% na regra geral, 120 na dissecção, cautela no AVC.
Emergência · 25% na primeira hora, nunca ao normal Dissecção · betabloqueador antes do vasodilatador Nifedipino sublingual · nunca

A crise hipertensiva é uma das poucas emergências em que a calma é tratamento. O número assusta, mas o que decide a conduta é o exame físico, o fundo de olho e a creatinina, e a pressa em normalizar produz mais dano do que a pressão que se quer corrigir.

Simulador de Pronto-Socorro

Agora é a sua vez de atender

Homem de 54 anos, com dor de cabeça e a visão embaçada, pressão de 224 por 130 na triagem. Você vai decidir se é urgência, emergência ou pseudocrise, o que examinar antes de qualquer droga, e quanto baixar na primeira hora.

Atender o caso →
Dr. Hélio Pires
Dr. Hélio Pires
Cardiologista

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Conteúdo de caráter educacional, dirigido a médicos e estudantes de medicina. As análises publicadas neste blog servem de apoio ao estudo e não substituem o julgamento clínico, a avaliação presencial do paciente nem as diretrizes oficiais das sociedades médicas.