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Pneumologia

DPOC exacerbada · ventilação não invasiva, broncodilatador e corticoide

DPOC exacerbada · ventilação não invasiva, broncodilatador e corticoide

Saturação de 99% numa máscara com reservatório a 15 litros por minuto, e o paciente cada vez mais sonolento na maca. Em algum plantão você vai receber esse homem de 69 anos, com DPOC conhecida, trazido pela ambulância depois de quatro dias de tosse com catarro esverdeado. O número do oxímetro parece bom, e a gasometria vai dizer o contrário: pH de 7,26 e gás carbônico de 78. O que você fizer na primeira hora decide se ele sai da sala com uma máscara de ventilação não invasiva ou com um tubo na traqueia.

O que acontece na exacerbação

A exacerbação da DPOC é a piora aguda da falta de ar, quase sempre com tosse e catarro, desencadeada na maior parte das vezes por infecção viral. O GOLD 2026 lembra que insuficiência cardíaca, embolia pulmonar, pneumonia, infarto e arritmia imitam ou pioram o quadro, e precisam ser procurados no mesmo atendimento.

O problema mecânico está na expiração. A via aérea inflamada e cheia de secreção esvazia devagar, o pulmão fica cada vez mais insuflado, e o diafragma trabalha achatado, em desvantagem. O paciente respira rápido e raso, ventila menos os alvéolos, e o gás carbônico sobe. Quando o rim não tem tempo de compensar, o pH cai, e essa acidose respiratória aguda mostra que a musculatura respiratória está falhando.

Como o GOLD 2026 classifica a gravidade

O GOLD 2026 classifica a gravidade na hora do atendimento, pela proposta de Roma, que a diretriz adotou desde o GOLD 2023 no lugar da classificação antiga, feita depois, pelo lugar onde o paciente foi tratado.

Gravidade da exacerbação na chegada
GravidadeO que se encontra
LeveDispneia abaixo de 5 numa escala de 0 a 10, frequência respiratória abaixo de 24, frequência cardíaca abaixo de 95, saturação em repouso de 92% ou mais no ar ambiente (ou no oxigênio que já usa em casa), PCR abaixo de 10 mg/L
ModeradaPelo menos três dos cinco: dispneia de 5 ou mais, frequência respiratória de 24 ou mais, frequência cardíaca de 95 ou mais, saturação abaixo de 92% ou queda de mais de 3 pontos, PCR de 10 mg/L ou mais
GraveOs mesmos achados da moderada, com gasometria mostrando PaCO2 acima de 45 mmHg com pH abaixo de 7,35

Infográfico Aevora, elaborado a partir do GOLD 2026, capítulo 4, figura 4.2 (classificação de Roma). A gasometria separa a moderada da grave.

Oxigênio controlado, antes de tudo

No paciente com DPOC grave, oxigênio em excesso desfaz a vasoconstrição que protegia a relação entre ventilação e perfusão e reduz o estímulo respiratório, e o gás carbônico sobe. A diretriz britânica de insuficiência respiratória hipercápnica de 2016 recomenda oxigênio controlado com saturação alvo de 88 a 92% na exacerbação da DPOC, com grau A de recomendação. A máscara de Venturi, que entrega uma fração de oxigênio fixa, é o jeito mais previsível de chegar lá.

No caso do começo, a saturação de 99% com reservatório é oxigênio demais, e a sonolência é o gás carbônico agindo. A conduta é trocar por Venturi e baixar a oferta até 88 a 92%, sem tirar o oxigênio de vez, porque a retirada súbita derruba a saturação.

Broncodilatador, corticoide e antibiótico

O GOLD 2026 reúne o tratamento em três classes de remédio, e cada uma tem uma regra de dose e de duração.

O tratamento da exacerbação, pelo GOLD 2026
MedidaComoDetalhe que muda a conduta
Broncodilatador de curta açãoBeta-agonista inalatório, com ou sem anticolinérgico de curta ação. Uma nebulização por hora por 2 a 3 doses, ou 1 a 2 jatos do spray por hora por 2 a 3 doses, depois a cada 2 a 4 horas conforme a respostaNebulizar com ar comprimido, porque a nebulização movida a oxigênio pode subir a PaCO2. Spray com espaçador funciona tanto quanto o nebulizador
Corticoide sistêmicoPrednisona 40 mg por dia, ou equivalente, por 5 diasOral tem o mesmo efeito do venoso. Curso mais longo se associa a pneumonia e morte
AntibióticoAmoxicilina com clavulanato, macrolídeo ou tetraciclina; quinolona em casos selecionados, conforme a resistência localIndicado com escarro purulento somado a mais um entre piora da dispneia, febre e aumento do volume do escarro, cultura positiva em exacerbação anterior ou necessidade de ventilação, invasiva ou não invasiva

Infográfico Aevora, elaborado a partir do GOLD 2026, capítulo 4 (tratamento farmacológico e figuras 4.5 e 4.6). Antibiótico, quando indicado, por 5 dias. Aminofilina venosa e estimulante respiratório não são recomendados. Doses de adulto.

O GOLD 2026 cita o ensaio STARR2, em que guiar a prednisolona pelos eosinófilos do sangue permitiu poupar parte dos pacientes de contagem baixa na atenção primária. A diretriz diz que o dado ainda precisa ser confirmado no paciente internado, e na exacerbação grave o corticoide segue indicado.

Os números que decidem a ventilação

Três números da exacerbação grave
Valor de pH que indica a ventilação não invasiva, com PaCO2 alta
7,35
ou menos
Saturação alvo com oxigênio controlado
88 a 92
%
Prednisona por dia, por 5 dias
40
mg

Infográfico Aevora, elaborado a partir do GOLD 2026 (figura 4.8 e tratamento farmacológico), da diretriz ERS/ATS de ventilação não invasiva de 2017 e da diretriz BTS/ICS de 2016.

Quando colocar a ventilação não invasiva

A ventilação não invasiva com dois níveis de pressão é o primeiro suporte na insuficiência respiratória da exacerbação. Nos ensaios citados pelo GOLD 2026, ela dá certo em 80 a 85% dos pacientes e reduz a intubação e a mortalidade. As três diretrizes concordam no critério:

Segundo a diretriz britânica, o tratamento clínico resolve a acidose em cerca de 1 de cada 5 pacientes, e por isso a gasometria se repete depois do broncodilatador e do oxigênio ajustado. A mesma diretriz diz que a acidose grave, sozinha, não impede a tentativa, desde que ela aconteça num lugar com equipe pronta para intubar.

O que cada achado manda fazer
  1. 1
    Saturação acima de 92% com reservatório e paciente sonolentoOxigênio demais. Venturi, alvo de 88 a 92% e gasometria.
  2. 2
    Acidose com pH de 7,35 ou menos e PaCO2 alta depois do tratamento inicialVentilação não invasiva com dois níveis de pressão, na sala de emergência ou na terapia intensiva.
  3. 3
    PaCO2 alta com pH normal e bicarbonato altoRetenção crônica compensada. Tratar e reavaliar, sem máscara por esse número.
  4. 4
    Escarro purulento ou necessidade de ventilaçãoAntibiótico desde o início, junto com o corticoide.
  5. 5
    Piora do pH e da frequência respiratória depois de 1 a 2 horas de máscaraRever vazamento, interface e pressões, e decidir a intubação sem adiar.
Saturação de 99% no paciente com DPOC · oxigênio demais Acidose respiratória · ventilação não invasiva Gasometria antes e depois de cada mudança

Como ajustar a máscara

A diretriz BTS/ICS de 2016 traz o roteiro de início. Máscara facial, que cobre nariz e boca. Pressão expiratória de 3 cmH2O, mais alta se o paciente tem apneia do sono. Pressão inspiratória de 15 cmH2O, ou 20 se o pH estiver abaixo de 7,25, subindo até 20 a 30 cmH2O em 10 a 30 minutos, até o tórax e o abdome se moverem bem e a frequência respiratória cair. Frequência de reserva de 16 a 20 e relação inspiração para expiração de 1 para 2 a 1 para 3, para dar tempo ao ar de sair. Pressão inspiratória baixa demais é uma das causas mais comuns de falha nas auditorias britânicas.

O oxigênio entra no circuito com o mesmo alvo de 88 a 92%. Nas primeiras 24 horas, o paciente fica na máscara o máximo que tolerar, e a retirada se faz nos 2 a 3 dias seguintes, começando pelas horas do dia. O GOLD 2026 acrescenta que, quando o paciente tolera 4 horas sem suporte, a ventilação não invasiva pode ser suspensa sem período de desmame.

Os limites

Deformidade facial grave, queimadura de face e obstrução fixa da via aérea alta impedem a máscara. Rebaixamento importante, agitação e secreção que o paciente não elimina tornam a falha mais provável e pedem um plano de intubação escrito antes de começar.

O que mostra que a máscara está dando certo é a melhora do pH e da frequência respiratória em 1 a 2 horas. A diretriz britânica aponta pH abaixo de 7,25 e frequência acima de 35 que persistem como sinal de falha provável. O GOLD 2026 inclui entre as indicações de intubação a hipoxemia grave que persiste, a intolerância à máscara, o rebaixamento ou a agitação que a sedação não controla e a instabilidade hemodinâmica sem resposta. O paciente que falha na ventilação não invasiva e é intubado tarde tem mais complicação e mais mortalidade, e por isso insistir na máscara quando ela não funciona custa caro.

Sobre o cateter nasal de alto fluxo, a diretriz da ERS de 2022 sugere tentar antes a ventilação não invasiva no paciente com DPOC e acidose hipercápnica, e o GOLD 2026 descreve um ensaio em que cerca de 30% dos pacientes do alto fluxo trocaram para a máscara em 6 horas. O alto fluxo fica para quem não tolera a máscara.

Na prática do plantão

A exacerbação grave da DPOC, na ordem
  1. 1
    Oxigênio controladoMáscara de Venturi com a menor fração que alcance a saturação alvo de 88 a 92%. Monitor e acesso.
  2. 2
    Gasometria arterial e radiografiaA gasometria classifica a gravidade. A radiografia procura pneumonia e pneumotórax; ela não atrasa a ventilação na acidose grave.
  3. 3
    Broncodilatador com ar comprimidoBeta-agonista com anticolinérgico de curta ação, uma nebulização por hora nas primeiras 2 a 3 doses.
  4. 4
    Prednisona 40 mg e antibiótico, se indicadoCorticoide por 5 dias. Antibiótico no escarro purulento ou em quem vai para a ventilação.
  5. 5
    Acidose com pH de 7,35 ou menos e PaCO2 altaVentilação não invasiva: pressão expiratória de 3, inspiratória de 15 subindo até 20 a 30 em 10 a 30 minutos.
  6. 6
    Gasometria em 1 a 2 horasCom pH e frequência melhores, mantém. Com os dois piores, revisa a máscara e decide a intubação.
Acidose que não melhora em 2 horas · decidir a intubação Pressão inspiratória até 20 a 30 cmH2O Nebulizar com ar comprimido

A exacerbação grave da DPOC se trata com pouco oxigênio, broncodilatador repetido, corticoide por 5 dias e a máscara de ventilação não invasiva colocada cedo na acidose respiratória. A gasometria repetida em 1 a 2 horas mostra se a máscara está funcionando, e o paciente que piora nela precisa ser intubado sem demora, porque a intubação tardia aumenta a mortalidade.

Simulador de Pronto-Socorro

Agora é a sua vez de atender

Homem de 69 anos, com DPOC, chegou de ambulância com máscara de reservatório a 15 litros e saturação de 99%. Está cada vez mais sonolento. Você vai ajustar o oxigênio, ler a gasometria e decidir a ventilação não invasiva.

Atender o caso →
Dr. Hélio Pires
Dr. Hélio Pires
Cardiologista

A ventilação não invasiva no paciente com DPOC, do ajuste inicial à decisão de intubar, é aula do Curso de Ventilação Mecânica da Aevora.

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Conteúdo de caráter educacional, dirigido a médicos e estudantes de medicina. As análises publicadas neste blog servem de apoio ao estudo e não substituem o julgamento clínico, a avaliação presencial do paciente nem as diretrizes oficiais das sociedades médicas.