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Cai na prova Tema cobrado com frequência, ancorado na diretriz vigente
Trauma

Pneumotórax hipertensivo · diagnóstico clínico e descompressão por agulha

Pneumotórax hipertensivo · diagnóstico clínico e descompressão por agulha

Motociclista de 28 anos, queda com o lado direito do tórax no asfalto, chega falando frases curtas. Saturação de 86% com máscara, pressão de 82 por 50, frequência de 132, jugulares cheias, murmúrio abolido à direita. Em algum plantão você vai ouvir alguém pedir a radiografia de tórax "para confirmar" antes de qualquer procedimento. Nesse intervalo, o mediastino continua sendo empurrado, o retorno venoso continua caindo, e o paciente pode parar na sala de raio X. O pneumotórax hipertensivo com instabilidade se diagnostica no exame físico e se trata na hora, com o que estiver na mão.

O que acontece dentro do tórax

No pneumotórax hipertensivo, a lesão da pleura funciona como válvula: o ar entra na cavidade pleural a cada inspiração e não sai na expiração. A pressão pleural sobe, o pulmão do lado afetado colapsa e o mediastino é deslocado para o lado oposto. A veia cava e o átrio direito são comprimidos, o retorno venoso cai e o débito cardíaco cai junto. O choque que resulta é obstrutivo, e por isso volume e vasopressor compram pouco tempo enquanto a pressão pleural não for aliviada.

Qualquer pneumotórax pode evoluir para hipertensivo, mas o risco é maior no trauma torácico e no paciente em ventilação com pressão positiva, em que o ventilador empurra ar para dentro da pleura a cada ciclo.

O quadro depende de o paciente estar ou não no ventilador

A revisão sistemática de Roberts e colaboradores, publicada em 2015 nos Annals of Surgery, reuniu 183 casos descritos em detalhe e mostrou que o pneumotórax hipertensivo se apresenta de forma diferente conforme a ventilação. No paciente que respira sozinho, a hipoxemia apareceu em metade dos casos, e o quadro dominante é respiratório: dispneia, taquipneia, taquicardia. No paciente em ventilação assistida, a hipoxemia apareceu em mais de 9 de cada 10 casos, e a chance de hipotensão foi 12,6 vezes maior e a de parada cardíaca 17,7 vezes maior. Entre os ventilados que tiveram hipotensão ou parada, 70,4% desenvolveram esses sinais em minutos.

Como o pneumotórax hipertensivo se apresenta
SituaçãoO que costuma aparecerO que esperar
Respira sozinhoDispneia, taquipneia, taquicardia, murmúrio reduzido ou abolido de um lado, timpanismo, hipoxemia em parte dos casosPiora respiratória progressiva; a hipotensão tende a ser mais tardia
Em ventilação com pressão positivaQueda de saturação, hipotensão súbita, pressão de pico que sobe no ventilador, murmúrio assimétricoColapso hemodinâmico em minutos, com risco alto de parada
Sinais que ajudam poucoDesvio de traqueia e jugular cheiaDifíceis de ver na sala de trauma, com colar cervical ou no paciente hipovolêmico; a ausência deles não afasta o diagnóstico

Infográfico Aevora, elaborado a partir de Roberts DJ et al., Annals of Surgery, 2015, e de Ahmad et al., World Journal of Emergency Surgery, 2025, que aponta a dificuldade de examinar murmúrio, percussão e traqueia na emergência.

O ponto que a prova cobra é a ordem do raciocínio. O paciente com desconforto respiratório, hipotensão e murmúrio abolido de um lado depois de trauma torácico, ou o paciente intubado que perde pressão e saturação de repente, tem pneumotórax hipertensivo até prova em contrário. Esperar a radiografia nesse cenário atrasa o único tratamento que funciona. O ultrassom à beira do leito, quando já está na sala, mostra a ausência de deslizamento pleural em segundos e pode ajudar, desde que não atrase a descompressão.

Onde punçar e com que agulha

A recomendação de local mudou. Em 2016, o ATLS ainda recomendava a punção com cateter de 5 cm no segundo espaço intercostal, na linha hemiclavicular, como registra a metanálise de Laan e colaboradores daquele ano. A mesma metanálise mostrou o problema: a parede torácica nesse ponto tinha em média 42,8 mm, e a agulha de 5 cm falhou em 38% das vezes. No quarto ou quinto espaço intercostal, na linha axilar anterior, a parede media 34,3 mm e a falha caiu para 13%.

Hoje, o ATLS recomenda no adulto o quarto ou quinto espaço intercostal, logo à frente da linha axilar média, com agulha de 5 cm no adulto pequeno e de 8 cm no adulto maior, segundo a descrição feita pela metanálise de Ahmad e colaboradores, de 2025. O European Trauma Course mantém o segundo espaço na linha hemiclavicular, com cateter calibre 14 ou 16 extralongo. As duas escolas convivem. Na prova, a questão costuma testar se você sabe que o local mudou no ATLS e por que mudou: a parede é mais fina na lateral, e a agulha alcança a pleura mais vezes.

Três números da descompressão
Local da punção no adulto, segundo o ATLS
4º ou 5º
espaço intercostal, à frente da linha axilar média
Comprimento da agulha no adulto maior
8 cm
5 cm fica para o adulto pequeno
Falha da agulha de 5 cm no 2º espaço, linha hemiclavicular
38%
contra 13% na linha axilar anterior

Infográfico Aevora, elaborado a partir de Ahmad et al., World Journal of Emergency Surgery, 2025 (descrição das recomendações do ATLS e do European Trauma Course), e de Laan et al., Injury, 2016 (espessura da parede e falha com cateter de 5 cm). Os percentuais vêm de estudos observacionais, com grande variação entre eles.

A metanálise de 2025, com 51 estudos, estimou falha de 32,8% da agulha em alcançar a cavidade pleural nos dados de imagem, e cada centímetro a mais de agulha reduziu a falha em cerca de 7,8 pontos percentuais. Os autores chamam atenção para o risco de lesão cardíaca na punção lateral do lado esquerdo com agulha longa, e sugerem o segundo espaço na linha hemiclavicular desse lado. É uma sugestão dos autores, com estudos muito heterogêneos, e ainda não virou recomendação de curso de trauma.

Depois da agulha

A agulha transforma o pneumotórax hipertensivo em pneumotórax simples e ganha tempo. O tratamento definitivo é a drenagem torácica, feita logo em seguida. O cateter pode dobrar, sair do lugar ou entupir, e o quadro volta. Se o paciente piorar de novo depois de melhorar, a primeira hipótese é o cateter que parou de funcionar.

O que cada achado manda fazer
  1. 1
    Trauma torácico, dispneia, hipotensão, murmúrio abolido de um ladoPneumotórax hipertensivo. Descompressão imediata do lado afetado, sem esperar imagem.
  2. 2
    Paciente intubado que perde pressão e saturação, com pressão de pico subindoPneumotórax hipertensivo até prova em contrário. Confira o tubo e o circuito em segundos e descomprima.
  3. 3
    Ar saindo pelo cateter e pressão que sobeDiagnóstico confirmado pela resposta. Prepare a drenagem torácica.
  4. 4
    Sem saída de ar e sem melhoraAgulha curta para a parede ou diagnóstico errado. Agulha mais longa, outro local ou toracostomia com o dedo, e procure outra causa de choque.
  5. 5
    Melhora e piora de novoCateter dobrado, deslocado ou entupido. Nova descompressão e drenagem sem demora.
Choque com murmúrio abolido · a radiografia espera Agulha ganha tempo, o dreno resolve Melhorou e piorou · confira o cateter

A pressão positiva e a parada traumática

A posição de 2024 da Faculdade de Cuidados Pré-Hospitalares do Royal College of Surgeons of Edinburgh lembra que a ventilação com pressão positiva pode precipitar a parada no paciente com pneumotórax hipertensivo, tamponamento ou hipovolemia grave, porque reduz o retorno venoso. Na parada cardíaca traumática, o pneumotórax hipertensivo deve ser tratado com toracostomia antes da intubação ou logo depois dela.

Na parada traumática, o mesmo documento afasta a agulha da primeira linha: com cateter de 5 cm na punção anterior, a falha esperada pela tomografia é de 42,5%. A recomendação é a toracostomia bilateral rápida, sem pausa para exame ou diagnóstico, ou dispositivo comercial de agulha de grosso calibre quando a toracostomia não estiver disponível. A toracostomia com o dedo é uma incisão na parede lateral do tórax, com abertura da pleura por dissecção romba e o dedo confirmando a entrada na cavidade. Fora da parada, ela é a alternativa quando a agulha falha, e o dreno entra pela mesma incisão.

Os limites

A descompressão por agulha num paciente sem pneumotórax hipertensivo cria um pneumotórax que não existia, e por isso o diagnóstico precisa ser clínico e firme, com o quadro completo. A falta de ar saindo pela agulha não prova que o diagnóstico estava errado, porque a agulha pode não ter chegado à pleura. Os números de espessura de parede e de falha vêm de estudos observacionais, com medidas feitas de formas diferentes, e o comprimento ideal da agulha varia com o biotipo. O pneumotórax espontâneo que evoluiu para hipertensivo também entra nesta conta, e a diretriz britânica de doença pleural de 2023 sugere considerar a cirurgia já no primeiro episódio para prevenir recorrência nesses pacientes.

Na prática do plantão

Pneumotórax hipertensivo, na ordem
  1. 1
    Reconhecer pela clínicaDispneia, taquicardia, hipotensão, hipoxemia, murmúrio abolido e timpanismo de um lado. No intubado, queda súbita de pressão e saturação.
  2. 2
    Oxigênio em alto fluxo, monitor e acessoSem atrasar o passo seguinte.
  3. 3
    Descomprimir o lado afetadoQuarto ou quinto espaço intercostal, à frente da linha axilar média, rente à borda superior da costela de baixo, com agulha longa o bastante para a parede do paciente.
  4. 4
    Ler a respostaSaída de ar, pressão que sobe, saturação que melhora. Sem resposta, toracostomia com o dedo ou nova punção com agulha mais longa.
  5. 5
    DrenarDreno torácico logo depois da descompressão, e radiografia para conferir a posição.
  6. 6
    Antes de intubar, descomprimirA pressão positiva num tórax hipertensivo pode levar à parada.
Intubado que despenca · pense na pleura 4º ou 5º espaço, à frente da axilar média Agulha, depois dreno

O pneumotórax hipertensivo se resolve com um procedimento simples, feito pelo médico que reconhece o quadro sem esperar a imagem. Quem sabe o local, escolhe a agulha certa e já tem o dreno preparado devolve o retorno venoso ao paciente em minutos.

Simulador de Pronto-Socorro

Agora é a sua vez de atender

Homem de 28 anos, queda de moto com o tórax direito no asfalto. Chega com colar, falando frases curtas, e a pressão está caindo. Você vai examinar, decidir se espera a radiografia e escolher onde e com que agulha descomprimir.

Atender o caso →
Dr. Hélio Pires
Dr. Hélio Pires
Cardiologista

Trauma torácico, do exame primário à drenagem, é módulo do curso de Urgências e Emergências da Aevora, com treino de procedimento em simulação.

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Conteúdo de caráter educacional, dirigido a médicos e estudantes de medicina. As análises publicadas neste blog servem de apoio ao estudo e não substituem o julgamento clínico, a avaliação presencial do paciente nem as diretrizes oficiais das sociedades médicas.