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Cai na prova Tema cobrado com frequência, ancorado na diretriz vigente
Neurologia

Escala de Glasgow sem vício · como pontuar, como registrar e onde o exame engana

A escala de Glasgow tem 50 anos e continua sendo o exame neurológico mais repetido do pronto-socorro. Ela foi desenhada em 1974 para que médicos e enfermeiros de serviços diferentes descrevessem o mesmo paciente com as mesmas palavras. O problema é que a maioria aprendeu a escala como um número, e o número esconde o que interessa: qual componente caiu, e quanto.

As três respostas, e o estímulo certo para cada uma

Escala de Glasgow · abertura ocular, resposta verbal e resposta motora
Abertura ocular (O)Resposta verbal (V)Resposta motora (M)
4 Espontânea5 Orientada6 Obedece comandos
3 Ao som4 Confusa5 Localiza a pressão
2 À pressão3 Palavras soltas4 Flexão normal, retirada
1 Ausente2 Sons3 Flexão anormal
1 Ausente2 Extensão
1 Ausente
NT Não testável (edema, trauma ocular)NT Não testável (tubo, traqueostomia)NT Não testável (bloqueio, lesão medular)

Infográfico Aevora, elaborado a partir de Teasdale et al., The Lancet Neurology, 2014, que padronizou os termos: "pressão" em vez de "dor", e "NT" para o componente que não pode ser testado.

A revisão de 2014 trouxe duas mudanças que valem para a prática e para a prova. A primeira é o estímulo: pressão, aplicada no leito ungueal, no trapézio ou na incisura supraorbitária, com intensidade crescente por até dez segundos. A segunda é o registro. A escala se anota por componente, O3 V4 M6, e a soma vem depois, se vier. Um Glasgow 10 pode ser O4 V1 M5 ou O2 V3 M5, e são pacientes muito diferentes.

Localizar, retirar e fletir: a diferença que mais erra

Como distinguir as respostas motoras 5, 4 e 3
5Localiza. A mão sobe acima da clavícula em direção ao estímulo no trapézio ou na incisura supraorbitária. É movimento com propósito.
4Flexão normal. O braço se afasta do estímulo com flexão rápida do cotovelo, sem cruzar a linha média e sem chegar à fonte. Retirada.
3Flexão anormal. Flexão lenta, com o punho fletido e o cotovelo junto ao corpo. Decorticação.
2Extensão. Cotovelo estendido com rotação interna do braço e pronação. Descerebração.

Infográfico Aevora. Para diferenciar localização de retirada, o estímulo precisa ser central. A pressão no leito ungueal produz retirada por reflexo espinhal e nunca prova que o paciente localiza.

Pontua-se sempre a melhor resposta, do melhor lado. Se um braço localiza e o outro só retira, o motor é 5, e a assimetria vai para o registro como sinal focal.

Onde a escala engana

O que a pontuação prevê, e o que ela não prevê

Na lesão cerebral traumática, a soma classifica a gravidade: 13 a 15 leve, 9 a 12 moderada, 8 ou menos grave. A regra tradicional de garantir a via aérea em quem chega com 8 ou menos continua válida como ponto de partida, e o motivo é a perda dos reflexos protetores, mais que o número em si. O componente motor é o que mais pesa no prognóstico, e por isso as escalas simplificadas que existem usam só ele.

GCS-Pupils: a pupila entra na conta
Duas pupilas reagem
0
a subtrair
Uma pupila não reage
1
a subtrair
Nenhuma pupila reage
2
a subtrair

Infográfico Aevora, elaborado a partir de Brennan et al., Journal of Neurosurgery, 2018. A soma vai de 1 a 15, e a pupila fixa tem o mesmo peso prognóstico que perder pontos na escala.

O que a escala não prevê é o que vai acontecer na próxima hora. Um Glasgow 13 na chegada em paciente anticoagulado com trauma de crânio pode ser o começo de um hematoma que ainda está crescendo. Por isso a pontuação isolada vale pouco e a série de pontuações vale muito.

Na prática do plantão

Como aplicar e registrar, toda vez
  1. 1
    Antes de pontuar, corrija o que rebaixaGlicemia capilar, oxigênio, pressão arterial. Um Glasgow medido com glicemia de 40 é o Glasgow da hipoglicemia, e some depois do tratamento.
  2. 2
    Observe, fale, pressionePrimeiro observe sem estímulo, depois chame pelo nome em voz alta, depois aplique pressão crescente no leito ungueal por até dez segundos. Para o motor, o estímulo central no trapézio ou na incisura supraorbitária.
  3. 3
    Pontue a melhor resposta e registre por componenteO3 V4 M6, com o horário. Se um componente não pôde ser testado, escreva NT e o motivo, sem somar.
  4. 4
    Acrescente pupilas e assimetriaTamanho e reação das duas pupilas, e qualquer diferença entre os lados na resposta motora. Esses dois dados mudam a conduta mais do que a soma.
  5. 5
    Repita em intervalo definidoA cada 15 a 30 minutos no paciente em observação por trauma de crânio. Queda de dois pontos ou mais, ou motor que cai um ponto, é emergência neurológica até prova em contrário.
Queda de 2 pontos · tomografia e via aérea agora Registre O V M, nunca só a soma Intubado · V vira NT, sem somar

A escala foi criada para ser repetida por pessoas diferentes ao longo do tempo. Quem a usa como fotografia única perde o que ela tem de melhor: a capacidade de mostrar, com dois pontos de diferença entre um exame e o seguinte, o hematoma que ainda não deu sinal em nenhum outro lugar.

Simulador de Pronto-Socorro

Agora é a sua vez de atender

Mulher de 71 anos, anticoagulada, caiu em casa e bateu a cabeça. Chega conversando, um pouco confusa. Você vai pontuar a escala do jeito certo, decidir o que vem antes da tomografia e reconhecer, na reavaliação, a queda que muda tudo.

Atender o caso →
Dr. Hélio Pires
Dr. Hélio Pires
Cardiologista

Avaliação neurológica no trauma e no rebaixamento é tema de aula prática no curso de Urgências e Emergências da Aevora.

Curso de Urgências e Emergências →
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Conteúdo de caráter educacional, dirigido a médicos e estudantes de medicina. As análises publicadas neste blog servem de apoio ao estudo e não substituem o julgamento clínico, a avaliação presencial do paciente nem as diretrizes oficiais das sociedades médicas.