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Via aérea

Sequência rápida de intubação · os sete passos que protegem o paciente na hora do tubo

Sequência rápida de intubação · os sete passos que protegem o paciente na hora do tubo

Intubar no pronto-socorro tem pouco a ver com intubar no centro cirúrgico. O paciente chega hipoxêmico, com o estômago cheio, muitas vezes hipotenso, e a decisão precisa ser tomada em minutos. A sequência rápida de intubação existe para organizar esse cenário: indutor e bloqueador neuromuscular em doses plenas, um atrás do outro, sem ventilação com pressão positiva entre eles, para chegar à laringoscopia com o paciente relaxado e o menor risco possível de aspiração. O que muda o desfecho está antes e depois do tubo.

Quem precisa do tubo

Três perguntas resolvem a indicação. Basta uma resposta sim.

As três perguntas da indicação
1O paciente consegue manter a via aérea pérvia e protegida? Rebaixamento com perda de reflexo de tosse, sangramento ou edema de via aérea respondem não.
2O paciente consegue oxigenar e ventilar? Hipoxemia que persiste com oxigênio de alto fluxo ou hipercapnia com sonolência progressiva, apesar da ventilação não invasiva, respondem não.
3O curso clínico previsto vai levar a uma das duas situações acima? Anafilaxia com edema de língua, queimadura de via aérea e choque que se aprofunda respondem sim.

Infográfico Aevora. A terceira pergunta é a que mais se esquece, e é a que evita a intubação em condição de emergência absoluta.

O tamanho do problema

O INTUBE observou 2.964 intubações de pacientes graves em 29 países e mostrou por que a preparação pesa tanto.

O que acontece ao redor do tubo no paciente grave
Ao menos um evento adverso grave
45,2
% das intubações
Instabilidade cardiovascular
42,6
% das intubações
Hipoxemia grave
9,3
% das intubações
Parada cardíaca
3,1
% das intubações

Infográfico Aevora, elaborado a partir de Russotto V et al., JAMA, 2021. O sucesso na primeira tentativa foi de 79,8%.

A leitura importante está no segundo número. A complicação mais comum da intubação do doente grave é a queda de pressão, e ela nasce da combinação de indutor em dose plena, perda do tônus simpático e pressão positiva num paciente que já chegava com pouca reserva. Preparar a hemodinâmica antes do tubo vale tanto quanto preparar o laringoscópio.

Os sete P da sequência rápida

Passo a passo, na ordem em que acontecem
  1. 1
    PreparaçãoAvaliar a via aérea prevista como difícil, montar material e aspiração testada, definir o plano B com videolaringoscópio e bougie, e o plano de resgate com dispositivo supraglótico e cricotireoidostomia. Drogas aspiradas e rotuladas, vasopressor pronto.
  2. 2
    Pré-oxigenaçãoTrês minutos de máscara não reinalante ou ventilação não invasiva com a cabeceira elevada, e cateter nasal a 15 L/min que fica ligado durante a laringoscopia. O objetivo é encher a reserva de oxigênio antes da apneia.
  3. 3
    Pré-otimizaçãoVolume ou vasopressor antes da indução em quem chega hipotenso. Pressão arterial que já está no limite cai depois do indutor, e a queda depois do tubo é a complicação que mais mata.
  4. 4
    Paralisia com induçãoIndutor e bloqueador neuromuscular em sequência imediata. No paciente instável, a cetamina em dose reduzida preserva melhor a pressão. O rocurônio a 1,2 mg/kg entrega condição de laringoscopia em cerca de um minuto.
  5. 5
    PosicionamentoMeato acústico externo alinhado ao esterno, cabeceira elevada. No obeso, a rampa de coxins faz a diferença entre ver e adivinhar a glote.
  6. 6
    Passagem do tubo com provaLaringoscopia, tubo, balonete e capnografia de onda. A ausculta e o embaçamento do tubo não são prova. Sem curva de capnografia, o tubo está no esôfago até que se prove o contrário.
  7. 7
    Pós-intubaçãoSedação e analgesia contínuas antes que o bloqueador passe, ventilação protetora com volume corrente pelo peso predito, radiografia para a altura do tubo e reavaliação da pressão arterial nos primeiros minutos.
Hipotenso antes do tubo · trate antes de induzir Capnografia de onda confirma, ausculta não Cateter nasal a 15 L/min fica ligado durante a laringoscopia

As drogas, e por que a escolha muda no paciente instável

Indutores e bloqueadores na sequência rápida
DrogaDose de referênciaO que pesa na escolha
Cetamina1 a 2 mg/kg IVPreserva a pressão arterial e o estímulo respiratório. No choque, metade da dose, porque o efeito depressor direto aparece quando as catecolaminas se esgotam
Etomidato0,3 mg/kg IVEstável do ponto de vista hemodinâmico na indução. Suprime a síntese de cortisol por um período, e o EvK levantou dúvida sobre a sobrevida precoce
Propofol1 a 2 mg/kg IVDerruba a pressão por vasodilatação e depressão miocárdica. Reservar para o paciente estável, e em dose reduzida
Succinilcolina1 a 1,5 mg/kg IVInício em menos de um minuto e duração curta. Contraindicada na hipercalemia e nas condições que a produzem: queimadura, lesão medular ou AVC com mais de 72 horas, doença neuromuscular
Rocurônio1,2 mg/kg IVInício semelhante à succinilcolina nessa dose, sem as contraindicações. Duração longa, o que obriga a sedação contínua logo após o tubo. Reversão com sugamadex, 16 mg/kg

Infográfico Aevora, elaborado a partir da diretriz da Difficult Airway Society, 2015, e do ensaio EvK, 2022. Doses por peso real, em bolus, com o paciente monitorizado.

O que os ensaios recentes mudaram

Quatro estudos que redesenharam a prática
EstudoDesenho e populaçãoResultado central
PreVent
NEJM, 2019
Randomizado, 401 adultos graves intubados em UTIVentilar com bolsa-máscara entre a indução e a laringoscopia reduziu a hipoxemia grave de 22,8% para 10,9%, sem aumento de aspiração
INTUBE
JAMA, 2021
Observacional, 2.964 intubações em 29 paísesEvento adverso grave em 45,2%, com instabilidade cardiovascular à frente. Propofol foi o indutor mais usado e se associou à queda de pressão
EvK
Intensive Care Med, 2022
Randomizado, 801 pacientes gravesSobrevida em 7 dias de 85,1% com cetamina contra 77,3% com etomidato. Em 28 dias a diferença deixou de ser significativa
DEVICE
NEJM, 2023
Randomizado, 1.417 adultos graves em emergência e UTISucesso na primeira tentativa de 85,1% com videolaringoscópio contra 70,8% com laringoscópio direto

Infográfico Aevora, elaborado a partir das fontes listadas no fim do post.

O PreVent derrubou um dogma. A regra de nunca ventilar entre a indução e o tubo, para não insuflar o estômago, custava hipoxemia sem reduzir aspiração. Ventilação gentil, com pressão baixa e frequência normal, entrou na sequência de quem precisa dela. O DEVICE fez o mesmo com o videolaringoscópio, que deixou de ser plano B para virar a primeira escolha onde existe.

Na prática do plantão

Do "vou intubar" ao ventilador
  1. 1
    Decida em voz altaDiga qual das três perguntas respondeu sim. Isso alinha a equipe e evita a intubação por impressão.
  2. 2
    Pré-oxigene enquanto preparaMáscara não reinalante ou ventilação não invasiva, cateter nasal a 15 L/min, cabeceira a 30 graus. Enquanto isso, material testado e drogas rotuladas.
  3. 3
    Olhe a pressão antes do indutorPressão sistólica abaixo de 100 mmHg ou índice de choque acima de 0,8 pedem volume ou vasopressor antes da indução, e indutor em dose reduzida.
  4. 4
    Induza e paraliseCetamina ou etomidato conforme o cenário, rocurônio 1,2 mg/kg logo em seguida. Ventile gentilmente com bolsa-máscara até a laringoscopia se a saturação estiver abaixo do ideal.
  5. 5
    Confirme com capnografia e sigaCurva de capnografia, fixação, sedação contínua, volume corrente de 6 mL/kg de peso predito e radiografia. Reavalie a pressão nos primeiros cinco minutos.
Primeira tentativa é a melhor tentativa Videolaringoscópio primeiro, onde existe Sedação contínua antes de o bloqueador passar

A sequência rápida é uma coreografia. Quem ensaia os sete passos no paciente estável chega calmo ao paciente instável, e é nesse paciente que a preparação, a pré-oxigenação e a pressão arterial cuidada antes do tubo separam a intubação sem susto da parada cardíaca no minuto seguinte.

Simulador de Pronto-Socorro

Agora é a sua vez de atender

Homem de 64 anos, DPOC, chega com falta de ar, sonolento e com a máscara de oxigênio que já não dá conta. Você vai decidir se intuba, como pré-oxigena, qual droga usa com a pressão no limite e como confirma o tubo.

Atender o caso →
Dr. Hélio Pires
Dr. Hélio Pires
Cardiologista

Manejo de via aérea com treino em simulação é um dos eixos do curso de Urgências e Emergências da Aevora.

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Conteúdo de caráter educacional, dirigido a médicos e estudantes de medicina. As análises publicadas neste blog servem de apoio ao estudo e não substituem o julgamento clínico, a avaliação presencial do paciente nem as diretrizes oficiais das sociedades médicas.