A síndrome coronariana sem supradesnivelamento de ST tem um problema que o infarto com supra não tem: o tempo até o cateterismo é uma decisão, com prazos diferentes para cada perfil de risco. Alguns pacientes precisam da sala de hemodinâmica em duas horas, outros em 24, e a maioria pode esperar a estratificação. O escore GRACE existe para colocar cada paciente na fila certa, e ele nasceu de um registro internacional de pacientes consecutivos.
De onde vem o escore
Infográfico Aevora, elaborado a partir de Granger et al., Archives of Internal Medicine, 2003. Estatística C de 0,83 significa que o modelo separa bem quem morre de quem sobrevive na internação; 0,5 seria o acaso.
O GRACE foi um registro prospectivo de pacientes consecutivos com síndrome coronariana aguda, de qualquer tipo, atendidos em hospitais de 14 países entre 1999 e 2001. Granger e colaboradores usaram esse banco para perguntar: com o que se sabe na admissão, dá para prever quem morre no hospital? Oito variáveis responderam. A versão de 2006, de Fox e colaboradores, estendeu a previsão para morte e infarto em seis meses. O modelo foi validado em outros registros e em populações de ensaios clínicos, e foi isso que o levou às diretrizes.
As oito variáveis e o que cada uma pesa
| Variável | Como entra | Faixa de pontos |
|---|---|---|
| Idade | Por década | 0 a 100 |
| Frequência cardíaca | Por faixa | 0 a 46 |
| Pressão sistólica | Por faixa, e quanto mais baixa, mais pontos | 0 a 58 |
| Creatinina | Por faixa | 1 a 28 |
| Classe de Killip | I, II, III ou IV | 0, 20, 39 ou 59 |
| Parada cardíaca na admissão | Sim ou não | 39 |
| Desvio do segmento ST | Sim ou não | 28 |
| Marcadores de necrose elevados | Sim ou não | 14 |
Infográfico Aevora, elaborado a partir de Granger et al., 2003. A tabela completa de pontos por faixa está na calculadora GRACE da Aevora.
Vale olhar os pesos. A idade e a pressão sistólica dominam o escore: um paciente de 75 anos já entra com 75 pontos antes de qualquer outro dado, e uma pressão abaixo de 80 mmHg soma 58. A troponina positiva, que costuma ser o dado mais valorizado à beira-leito, vale 14 pontos, metade do desvio de ST. O escore diz, em números, o que a clínica sabe: quem morre na síndrome coronariana sem supra é o idoso, o hipotenso e o que chega em Killip alto.
Os cortes e o que fazem com eles
Infográfico Aevora, elaborado a partir de Granger et al., 2003.
Infográfico Aevora, elaborado a partir de Byrne et al., European Heart Journal, 2023, e de Nicolau et al., Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 2021.
Repare que o GRACE acima de 140 é um dos critérios de risco alto, entre vários. O infarto sem supra confirmado pela troponina já coloca o paciente na fila das 24 horas, com ou sem escore. O escore faz diferença sobretudo em dois lugares: no paciente com troponina negativa e clínica preocupante, em que os 140 pontos tiram da estratégia seletiva, e na ordem da fila quando a sala de hemodinâmica tem mais pacientes do que vagas.
O que a diretriz de 2023 mudou
A diretriz europeia de 2023 reduziu a força da recomendação da estratégia invasiva em 24 horas para o risco alto, de classe I para classe IIa. O motivo foi a leitura dos ensaios que compararam cateterismo em menos de 24 horas com cateterismo em 24 a 72 horas: o benefício em mortalidade não apareceu de forma consistente, e o que se ganhou foi menos isquemia recorrente e menos tempo de internação. Na prática do plantão, o que muda é pouco: o paciente de risco alto continua na fila das 24 horas, e o que não se faz mais é tratá-lo como emergência de duas horas.
A mesma diretriz reforçou um ponto que costuma ser cobrado com frequência: no paciente sem supra com estratégia invasiva precoce planejada, o pré-tratamento de rotina com inibidor de P2Y12 antes de conhecer a anatomia deixou de ser recomendado. O motivo é o sangramento em quem acaba indo para cirurgia de revascularização, sem ganho isquêmico demonstrado. Aspirina e anticoagulante parenteral seguem desde a admissão.
Na prática do plantão
- 1Feche o diagnósticoECG em 10 minutos, repetido se a dor mudar, e troponina de alta sensibilidade seriada. Troponina elevada com curva de subida ou descida, em contexto clínico compatível, é infarto sem supra.
- 2Procure o risco muito alto antes de qualquer escorePressão, perfusão, congestão, dor que não cede, arritmia. Qualquer um deles leva à sala de hemodinâmica em duas horas, e o GRACE não precisa ser calculado para isso.
- 3Calcule o GRACE com os dados da admissãoIdade, frequência, pressão sistólica, creatinina, Killip, parada, desvio de ST e troponina. Acima de 140, o paciente entra na fila das 24 horas mesmo que a troponina ainda esteja em curva.
- 4Inicie o tratamento que não depende da anatomiaAspirina, anticoagulante parenteral, estatina de alta intensidade, betabloqueador se não houver contraindicação, nitrato para a dor. O inibidor de P2Y12 espera a anatomia se o cateterismo for precoce.
- 5Registre o prazo e acione a hemodinâmicaAnote no prontuário a categoria de risco e a hora limite. Sem hemodinâmica no serviço, a transferência se organiza dentro do mesmo prazo.
O GRACE tem 20 anos e continua de pé porque faz uma coisa simples com dados que todo pronto-socorro tem na primeira hora. Ele escolhe a fila, e o tratamento vem em seguida. E na síndrome coronariana sem supra, escolher a fila certa é grande parte do tratamento.
Agora é a sua vez de atender
Mulher de 68 anos, diabética, teve aperto no peito em repouso que já passou. O eletrocardiograma e a troponina vão dizer o que é. Você vai calcular o GRACE, definir a hora do cateterismo e escolher o que começa agora e o que espera a anatomia.
Atender o caso →Fontes
- Granger CB et al. Predictors of hospital mortality in the Global Registry of Acute Coronary Events (GRACE). Archives of Internal Medicine, 2003.
- Fox KAA et al. Prediction of risk of death and myocardial infarction in the six months after presentation with acute coronary syndrome, prospective multinational observational study (GRACE). BMJ, 2006.
- Byrne RA et al. 2023 ESC Guidelines for the management of acute coronary syndromes. European Heart Journal, 2023.
- Nicolau JC et al. Diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre angina instável e infarto agudo do miocárdio sem supradesnível do segmento ST, 2021. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 2021.
Síndrome coronariana aguda, do eletrocardiograma à sala de hemodinâmica, é módulo inteiro do curso de Urgências e Emergências da Aevora.
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