← Voltar ao blog
Análise de artigo Leitura crítica de estudo ou diretriz recente
Sepse e choque

Noradrenalina precoce e por acesso periférico · o que a evidência já permite

Noradrenalina precoce e por acesso periférico · o que a evidência já permite

Durante anos a sequência ensinada foi rígida: completar a reposição volêmica e só então, se a hipotensão persistisse, iniciar vasopressor por cateter central. Duas peças dessa sequência foram revistas, e as duas mudam o que acontece nas primeiras horas do choque séptico.

O que o CENSER testou

O ensaio CENSER, publicado no American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine em 2019, randomizou 310 pacientes com choque séptico para noradrenalina em dose fixa baixa iniciada precocemente, junto da ressuscitação volêmica, contra o cuidado usual. O desfecho primário foi controle de choque em seis horas, definido por pressão arterial média mantida acima de 65 mmHg com sinais de perfusão adequada.

CENSER · o resultado central
Noradrenalina precoce
76,1
% com choque controlado em 6 h
Cuidado usual
48,4
% com choque controlado em 6 h

Dados de Permpikul et al., AJRCCM 2019. Diferença estatisticamente significativa no desfecho primário.

Houve ainda menos edema pulmonar e menos arritmia nova no grupo de intervenção, o que contraria a intuição de que vasopressor precoce seria mais agressivo.

O que o estudo não mostrou

Aqui vale honestidade metodológica, porque é onde a leitura apressada erra:

E o acesso periférico

Essa é uma pergunta separada, e a resposta honesta é que a evidência vem sobretudo de séries observacionais, não de ensaios randomizados grandes. O que elas sustentam é que a administração periférica de noradrenalina por período curto, em veia calibrosa e proximal, com vigilância ativa do sítio, tem taxa baixa de extravasamento com consequência relevante. A diretriz da Surviving Sepsis de 2021 admite iniciar o vasopressor por acesso periférico para restaurar a pressão enquanto o acesso central é providenciado, deixando claro que não se trata de abandonar o central.

Quer dizer: começar cedo pelo periférico é ponte, não destino.

Na prática do plantão

Passo a passo no choque séptico
  1. 1
    Comece o cristaloide e chame o vasopressor juntoHipotensão significativa não exige esperar o volume terminar.
  2. 2
    Escolha uma veia adequadaCalibrosa e proximal, de preferência antecubital. Evite dorso da mão e veia distal de membro inferior.
  3. 3
    Titule para a pressão arterial médiaAlvo de 65 mmHg, reavaliando perfusão e lactato.
  4. 4
    Vigie o sítio a cada checagemPalidez, dor ou endurecimento pedem interrupção imediata e troca de via.
  5. 5
    Providencie o acesso central em paraleloO periférico é ponte para as primeiras horas, e não a via definitiva.
Periférico proximal · ponte aceitável Sinal no sítio · parar e trocar Central em paralelo, sempre
Dr. Hélio Pires
Dr. Hélio Pires
Cardiologista

Choque e drogas vasoativas são trabalhados com casos reais no curso de Urgências e Emergências.

Curso de Urgências e Emergências →
Veja também

Acompanhe a Aevora para conteúdo diário de emergência, cardiologia e terapia intensiva.

Conteúdo de caráter educacional, dirigido a médicos e estudantes de medicina. As análises publicadas neste blog servem de apoio ao estudo e não substituem o julgamento clínico, a avaliação presencial do paciente nem as diretrizes oficiais das sociedades médicas.