Sepse é disfunção orgânica causada por resposta desregulada à infecção, e a janela que decide desfecho é curta. A diretriz da Surviving Sepsis Campaign de 2021 organiza essa janela em um conjunto de medidas que precisam acontecer juntas, e não em sequência burocrática.
O que mudou na triagem
A versão de 2021 foi explícita em não recomendar o qSOFA como ferramenta única de rastreamento, por sensibilidade insuficiente. O qSOFA continua útil como sinal de alerta, com sua tríade de frequência respiratória de 22 ou mais, alteração do estado mental e pressão sistólica de 100 mmHg ou menos, mas a diretriz orienta programas de rastreamento sistemático em vez de depender de um escore isolado.
Infográfico Aevora. Sinal de alerta, e não critério diagnóstico nem rastreamento suficiente sozinho.
A primeira hora
| Medida | O que fazer |
|---|---|
| Lactato | Dosar e repetir para guiar a ressuscitação quando o inicial estiver elevado |
| Hemoculturas | Colher antes do antibiótico, desde que não atrase a primeira dose além de poucos minutos |
| Antibiótico | Amplo espectro imediato no choque séptico e na sepse com alta probabilidade |
| Cristaloide | 30 mL/kg em hipotensão ou lactato de 4 mmol/L ou mais, com reavaliação frequente |
| Vasopressor | Noradrenalina para alvo de pressão arterial média de 65 mmHg se a hipotensão persistir |
Tabela Aevora, elaborada a partir de Evans et al., Intensive Care Medicine 2021.
O ponto mais mal compreendido é o volume. Os 30 mL/kg são um ponto de partida, e não uma meta a ser cumprida independentemente da resposta. A diretriz recomenda reavaliação frequente com variáveis dinâmicas, e paciente cardiopata ou com congestão exige cautela desde o início.
Vasopressor precoce
O ensaio CENSER, publicado no American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine em 2019, randomizou 310 pacientes e mostrou que a noradrenalina iniciada precocemente aumentou o controle de choque em seis horas, sem sinal de dano. Isso sustenta uma prática hoje comum: não esperar terminar todo o volume para começar o vasopressor quando a hipotensão é significativa.
Por que este tema é cobrado com tanta frequência
Sepse combina definição conceitual, escore, pacote de medidas com tempos definidos e alvos numéricos, tudo que se cobra bem em prova. Vale levar memorizados os três itens do qSOFA, os 30 mL/kg, a pressão arterial média alvo de 65 mmHg, a noradrenalina como vasopressor de primeira escolha e, principalmente, o fato de que o qSOFA não é rastreamento isolado na diretriz de 2021.
Na prática do plantão
- 1ReconheçaInfecção suspeita mais disfunção orgânica. Não espere hipotensão para chamar de sepse.
- 2Colha lactato e hemoculturasAntes do antibiótico, sem atrasar o antibiótico.
- 3Antibiótico imediatoAmplo espectro, ajustado ao foco provável e ao perfil do serviço.
- 4Cristaloide com reavaliação30 mL/kg como ponto de partida, reavaliando resposta e tolerância.
- 5Noradrenalina sem esperar o volume acabarAlvo de pressão arterial média de 65 mmHg.
- 6Controle o focoDrenagem, retirada de cateter, desbridamento. Antibiótico não resolve foco não controlado.
Fontes
- Evans L et al. Surviving Sepsis Campaign, international guidelines for management of sepsis and septic shock 2021. Intensive Care Medicine, 2021.
- Evans L et al. Surviving Sepsis Campaign 2021 (versão Critical Care Medicine). Critical Care Medicine, 2021.
- Permpikul C et al. Early use of norepinephrine in septic shock resuscitation (CENSER). American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine, 2019.
O manejo das primeiras horas do choque é um dos eixos do curso de Urgências e Emergências da Aevora.
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