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Cai na prova Tema cobrado com frequência, ancorado na diretriz vigente
Eletrocardiograma

Taquicardia de QRS largo · instabilidade, sinais de origem ventricular e tratamento

Taquicardia de QRS largo · instabilidade, sinais de origem ventricular e tratamento

Frequência de 180, QRS largo, ritmo regular, e um paciente conversando com pressão de 112 por 70. Em algum plantão você vai ouvir de alguém da equipe que "está estável demais para ser taquicardia ventricular, deve ser uma supraventricular com aberrância". A frase parece razoável e está errada nas duas metades. A estabilidade hemodinâmica não separa um ritmo do outro, e o erro de tratar uma taquicardia ventricular como supraventricular pode custar a vida do paciente, enquanto o erro inverso custa pouco. Por isso as diretrizes mandam conduzir toda taquicardia de QRS largo sem diagnóstico firmado como taquicardia ventricular.

Primeira pergunta: o paciente está instável?

Taquicardia com pulso · os cinco sinais que mandam para o choque
1Hipotensão, com a pressão baixa atribuída à taquicardia.
2Alteração aguda do nível de consciência, de confusão a rebaixamento.
3Sinais de choque: extremidades frias, enchimento capilar lento, oligúria, lactato alto.
4Dor torácica isquêmica, durante a taquicardia.
5Insuficiência cardíaca aguda, com congestão pulmonar ou edema agudo.

Infográfico Aevora, elaborado a partir do algoritmo de taquicardia com pulso de Wigginton et al., Circulation, 2025. Um sinal basta: cardioversão elétrica sincronizada, com sedação se o tempo permitir. Sem pulso, o protocolo passa a ser o da parada cardiorrespiratória.

Com um desses sinais, o diagnóstico do ritmo deixa de importar naquele minuto. A cardioversão sincronizada trata a taquicardia ventricular e a supraventricular. Na taquicardia ventricular monomórfica com pulso, a carga inicial no aparelho bifásico é de 100 J (SBC 2019 e material de treino da AHA 2025) ou de 120 a 150 J (ERC 2025), com aumento da carga se o primeiro choque falhar. A taquicardia de QRS largo polimórfica e irregular recebe desfibrilação, sem sincronizar, porque o aparelho não consegue achar a onda R em que se apoiar.

Segunda pergunta: o QRS largo é ventricular?

QRS largo é 120 ms ou mais, três quadradinhos pequenos. Três ritmos produzem taquicardia regular com QRS largo: a taquicardia ventricular, a supraventricular conduzida com bloqueio de ramo ou aberrância, e a supraventricular conduzida por uma via acessória. A história resolve boa parte da dúvida antes do traçado: infarto prévio, cardiomiopatia ou insuficiência cardíaca fazem da taquicardia ventricular a hipótese de longe mais provável.

O que aponta taquicardia ventricular no eletrocardiograma
AchadoComo procurarPeso
Dissociação atrioventricularOndas P em ritmo próprio, mais lentas, marchando sem relação com os QRS. Procure entalhes que aparecem em intervalos regulares em D2 e V1Quando presente, fecha o diagnóstico
Batimentos de captura e de fusãoUm QRS estreito no meio da taquicardia, de um P que passou pelo nó, ou um QRS de forma intermediária, metade sinusal e metade ventricularQuando presente, fecha o diagnóstico
Concordância precordialQRS todos positivos ou todos negativos de V1 a V6Muito sugestivo
Ausência de RS nas precordiaisNenhuma derivação de V1 a V6 com complexo RS; ou, quando há RS, início do R ao fundo do S acima de 100 msMuito sugestivo
Eixo no quadrante noroesteQRS negativo em D1 e em aVF, entre menos 90 e mais ou menos 180 grausSugestivo
Onda R inicial em aVRQRS que começa positivo em aVRSugestivo

Infográfico Aevora, elaborado a partir de Zeppenfeld et al., European Heart Journal, 2022, e de Brugada et al., European Heart Journal, 2020. Nenhum critério isolado afasta taquicardia ventricular, e o traçado sem critério claro segue a mesma conduta dela.

O padrão de bloqueio de ramo idêntico ao de um eletrocardiograma antigo em ritmo sinusal fala a favor da supraventricular com bloqueio prévio. Sem o traçado antigo na mão, essa comparação não existe, e a dúvida continua a pender para o ventrículo.

O que cai na prova: o paciente estável

Taquicardia regular de QRS largo, paciente estável
OpçãoQuandoDose e cuidado
Cardioversão elétrica sincronizada sob sedaçãoPrimeira linha na taquicardia ventricular monomórfica tolerada, se o risco da sedação é baixo100 J (SBC, AHA) ou 120 a 150 J (ERC) no bifásico, sincronizada, subindo a carga se falhar, com equipe e material de via aérea
AdenosinaSó na taquicardia regular e monomórfica, sem pré-excitação no traçado de base6 mg em bólus rápido com flush de soro; 12 mg se não houver resposta
ProcainamidaTaquicardia ventricular tolerada, com doença estrutural conhecida ou suspeita20 a 50 mg/min até a arritmia ceder, hipotensão, QRS 50% mais largo ou 17 mg/kg. Evitar com QT longo e insuficiência cardíaca
AmiodaronaTaquicardia de QRS largo tolerada sem diagnóstico firmado, ou recorrente após o choque150 mg em 10 minutos, repetidos se preciso, e depois 1 mg/min nas primeiras 6 horas
Verapamil e diltiazemNunca na taquicardia de QRS largo de origem desconhecidaNa taquicardia ventricular, a queda da contratilidade e a vasodilatação levam ao colapso

Infográfico Aevora, elaborado a partir de Wigginton et al., 2025, Zeppenfeld et al., 2022, e Brugada et al., 2020. Manobra vagal pode ser tentada enquanto se prepara o restante. A cardioversão sincronizada é a saída sempre que a droga falha ou o paciente piora.

A adenosina tem um lugar estreito. Na taquicardia regular e monomórfica ela pode reverter a supraventricular e, na ventricular, em geral não faz efeito e passa em segundos. Na taquicardia de QRS largo irregular, que pode ser fibrilação atrial conduzida por via acessória, ela e os outros bloqueadores do nó atrioventricular aceleram a condução pela via e podem levar à fibrilação ventricular.

Na prática do plantão

Taquicardia de QRS largo, em ordem
  1. 1
    Pulso, monitor, pás coladas, acesso, oxigênio se saturação baixaAs pás vão no peito antes de qualquer decisão. Sem pulso, é parada.
  2. 2
    Procure os cinco sinais de instabilidadeHipotensão, consciência alterada, choque, dor isquêmica, insuficiência cardíaca aguda. Um sinal: cardioversão sincronizada.
  3. 3
    Estável: eletrocardiograma de 12 derivações antes de tratarRegular ou irregular, monomórfica ou polimórfica. Dissociação, captura, fusão, concordância, eixo. Pergunte por infarto e insuficiência cardíaca.
  4. 4
    Sem diagnóstico firmado, trate como taquicardia ventricularCardioversão sincronizada sob sedação, ou amiodarona ou procainamida. Adenosina só se regular e monomórfica. Verapamil e diltiazem ficam fora.
  5. 5
    Potássio, magnésio, isquemia, drogasCorrija o que alimenta a arritmia e chame o cardiologista. Eletrocardiograma depois da reversão, sempre.
QRS largo sem diagnóstico · conduta de taquicardia ventricular Instável · cardioversão sincronizada Estabilidade não afasta taquicardia ventricular

A taquicardia de QRS largo pede duas perguntas, na ordem: o paciente aguenta o ritmo, e de onde o ritmo vem. A primeira decide se o choque é agora. A segunda decide a droga, e quando ela fica sem resposta, a conduta segura é a que serve para a taquicardia ventricular.

Simulador de Pronto-Socorro

Agora é a sua vez de atender

Homem de 67 anos, com palpitação há uma hora, frequência de 180 e QRS largo. A pressão está normal e há um verapamil separado na bandeja. Você vai ler o traçado, decidir de onde vem o ritmo e escolher entre o choque e a droga.

Atender o caso →
Dr. Hélio Pires
Dr. Hélio Pires
Cardiologista

A taquicardia com pulso, com a leitura do QRS largo e a escolha entre choque e droga, é módulo do curso de Urgências e Emergências da Aevora.

Curso de Urgências e Emergências →
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Conteúdo de caráter educacional, dirigido a médicos e estudantes de medicina. As análises publicadas neste blog servem de apoio ao estudo e não substituem o julgamento clínico, a avaliação presencial do paciente nem as diretrizes oficiais das sociedades médicas.