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Trauma

Trauma craniano leve · quando pedir tomografia pela regra canadense

Trauma craniano leve · quando pedir tomografia pela regra canadense

Ele caiu da escada de casa, apagou por alguns segundos segundo a esposa, e chega andando, Glasgow 15, com dor de cabeça e uma mancha roxa na testa. Em algum plantão você vai atender esse paciente numa fila cheia, e a pergunta que pesa é uma só: tomografia ou alta? A regra canadense da tomografia de crânio responde essa pergunta com sete critérios, e a política do American College of Emergency Physicians de 2023 recomenda usá-la com o nível mais alto de evidência.

O problema que a regra resolve

Na coorte que deu origem à regra, publicada por Stiell e colaboradores no The Lancet em 2001, foram 3.121 adultos com Glasgow 13 a 15 depois de trauma de crânio: 8% tinham lesão cerebral clinicamente importante na tomografia e 1% precisou de intervenção neurocirúrgica. O paciente com hematoma pequeno pode estar orientado e andando, e o exame físico sozinho não separa esses grupos.

Quem entra na regra

A regra vale para o adulto com trauma craniano fechado, Glasgow 13 a 15 na chegada, que teve ao menos um destes: perda de consciência testemunhada, amnésia definida do evento ou desorientação testemunhada. O paciente que bateu a cabeça sem nenhum desses três está fora da definição de trauma craniano leve usada pela regra.

Quem a regra canadense avalia e quem fica de fora
SituaçãoA regra se aplica?Por quê
Adulto, Glasgow 13 a 15, com perda de consciência, amnésia ou desorientação testemunhadaSimÉ a população em que a regra foi derivada e validada
Menor de 16 anosNãoCriança ficou fora dos estudos; a decisão segue regras pediátricas próprias
Em uso de anticoagulanteNãoExcluído da derivação; o ACEP 2023 recomenda não usar regra de decisão para dispensar a tomografia nesse paciente
Convulsão depois do traumaNãoExcluído da derivação; na diretriz NICE de 2023 a convulsão pós-traumática já indica tomografia em 1 hora
Glasgow 12 ou menosNãoTrauma moderado ou grave; a tomografia está indicada sem regra

Infográfico Aevora, elaborado a partir de Stiell et al., The Lancet, 2001, Stiell et al., JAMA, 2005, e da política clínica do American College of Emergency Physicians para trauma craniano leve, 2023.

Os sete critérios

Os critérios se dividem em dois blocos. Os cinco de alto risco foram desenhados para não deixar passar o paciente que vai precisar de neurocirurgia. Os dois de médio risco ampliam a rede para pegar a lesão clinicamente importante, aquela que pede internação e acompanhamento mesmo sem cirurgia. Qualquer critério presente indica a tomografia.

Canadian CT Head Rule · qualquer item indica tomografia
BlocoCritérioComo aplicar
Alto riscoGlasgow abaixo de 15 duas horas depois do traumaA conta é a partir da hora do trauma; confusão que persiste não se atribui ao susto
Alto riscoSuspeita de fratura exposta ou com afundamento do crânioPalpar o couro cabeludo inteiro, inclusive sob o hematoma
Alto riscoQualquer sinal de fratura da base do crânioHemotímpano, equimose periorbitária, sinal de Battle, saída de líquor pelo nariz ou pelo ouvido
Alto riscoVômito em dois ou mais episódiosUm episódio isolado não preenche o critério
Alto riscoIdade de 65 anos ou maisVale mesmo com Glasgow 15 e exame normal
Médio riscoAmnésia retrógrada de 30 minutos ou maisPerguntar do que ele se lembra antes da queda
Médio riscoMecanismo perigosoPedestre atingido por veículo, ocupante ejetado do veículo, queda de mais de 1 metro ou de mais de cinco degraus

Infográfico Aevora, elaborado a partir de Stiell et al., The Lancet, 2001, e da tabela 1 da política clínica do ACEP de 2023. A regra se aplica só depois de confirmar que o paciente está dentro dos critérios de inclusão.

Os números que você precisa guardar

Três cortes da regra canadense
Glasgow que ainda não voltou a 15
2 h
depois do trauma indica tomografia
Idade, mesmo com exame normal
65
anos ou mais indica tomografia
Amnésia do que aconteceu antes do trauma
30 min
ou mais indica tomografia

Infográfico Aevora, elaborado a partir de Stiell et al., The Lancet, 2001. Valem só para o adulto dentro dos critérios de inclusão.

O que os estudos mostraram

Na derivação de 2001, os cinco critérios de alto risco tiveram sensibilidade de 100% para a necessidade de intervenção neurocirúrgica, com intervalo de confiança de 92% a 100%, e indicariam tomografia para 32% dos pacientes. Os dois critérios de médio risco somados tiveram sensibilidade de 98,4% para lesão cerebral clinicamente importante, com especificidade de 49,6%, e indicariam tomografia para 54% dos pacientes.

A validação veio em 2005, no JAMA, comparando a regra canadense com os critérios de New Orleans em 1.822 adultos com Glasgow 15. As duas regras tiveram sensibilidade de 100% para neurocirurgia e para lesão clinicamente importante. A diferença ficou na especificidade: 76,3% contra 12,1% para neurocirurgia e 50,6% contra 12,7% para lesão importante. Na prática, a regra canadense indicaria tomografia para 52,1% dos pacientes, contra 88,0% com New Orleans.

A política clínica do ACEP de 2023, que atualizou a de 2008, faz disso uma recomendação de nível A: usar a regra canadense para apoiar a decisão e melhorar o uso da tomografia no adulto com trauma craniano leve. Os critérios de New Orleans e o NEXUS Head CT ficaram com nível B, com a ressalva de que a especificidade menor leva a mais exames desnecessários.

O que a diretriz britânica acrescenta

A diretriz NICE de trauma de crânio, atualizada em 2023 (NG232), usa critérios próximos aos canadenses e acrescenta prazo para a tomografia.

NICE NG232 · tomografia em 1 hora ou em 8 horas, no adulto
PrazoQualquer um destes
Em 1 horaGlasgow 12 ou menos na primeira avaliação; Glasgow abaixo de 15 duas horas depois do trauma; suspeita de fratura exposta ou com afundamento; sinal de fratura de base; convulsão pós-traumática; déficit neurológico focal; mais de um episódio de vômito
Em 8 horasPerda de consciência ou amnésia, junto com qualquer um destes: 65 anos ou mais; distúrbio de sangramento ou de coagulação; mecanismo perigoso; amnésia retrógrada de mais de 30 minutos
Anticoagulante ou antiplaquetário, sem outra indicaçãoConsiderar tomografia em até 8 horas do trauma, ou em 1 hora se ele chegou depois de 8 horas; aspirina isolada fica de fora

Infográfico Aevora, elaborado a partir da diretriz NICE NG232, 2023, para pessoas de 16 anos ou mais; o anticoagulado está na recomendação 1.5.13.

O que cada achado manda fazer
  1. 1
    Qualquer critério de alto riscoTomografia de crânio sem contraste. É o grupo em que a regra procura a lesão cirúrgica.
  2. 2
    Só critério de médio riscoTomografia também. A lesão que aparece aqui costuma pedir observação e avaliação da neurocirurgia, mesmo sem cirurgia.
  3. 3
    Dentro da regra e sem nenhum critérioAlta sem tomografia, com orientação por escrito sobre sinais de alarme e um adulto responsável por perto.
  4. 4
    Anticoagulado, convulsão, menor de 16 anos ou Glasgow 12 ou menosA regra não se aplica. A decisão segue a diretriz da situação, e no anticoagulado o ACEP recomenda não usar regra para dispensar a tomografia.
  5. 5
    Anticoagulado com tomografia normal e exame neurológico normalPelo ACEP 2023, sem nova tomografia de rotina e sem internação de rotina. Orientação de retorno e revisão do risco de queda e da anticoagulação no ambulatório.
65 anos ou mais · tomografia mesmo com Glasgow 15 Nenhum critério, dentro da regra · alta com orientação Anticoagulado · a regra não serve para dispensar

Os limites

A regra só funciona dentro da população em que foi estudada. Aplicada ao anticoagulado, ao idoso que convulsionou ou ao paciente com Glasgow 12, ela dá uma falsa segurança que os próprios estudos nunca testaram. Na validação de 2005, os médicos dispensaram tomografia que a regra indicava em 4,0% dos pacientes. Aplicar os sete critérios em voz alta, um por um, reduz esse erro.

O paciente intoxicado é outro limite prático. Álcool rebaixa o Glasgow e dificulta saber se a confusão vem da bebida ou do trauma, e o critério das duas horas foi feito para isso: se o Glasgow não voltou a 15 nesse prazo, a tomografia está indicada, sem esperar a embriaguez passar.

A prioridade da regra é a sensibilidade, e ela ainda indica tomografia para cerca de metade dos pacientes. Onde há dosagem de proteína S100B, a diretriz escandinava de 2013 aceita alta sem tomografia ao paciente de baixo risco com S100B abaixo de 0,10 µg/L colhida em até 6 horas do trauma.

Na prática do plantão

A regra canadense em ordem, no adulto com trauma craniano leve
  1. 1
    Glasgow, pupilas, glicemia capilarCorrigir o que rebaixa a consciência antes de atribuir tudo ao trauma.
  2. 2
    Confirmar a inclusãoGlasgow 13 a 15 com perda de consciência, amnésia ou desorientação testemunhada. Sem nenhum dos três, a regra não se aplica.
  3. 3
    Procurar as exclusõesAnticoagulante, convulsão depois do trauma, menos de 16 anos. Presente qualquer uma, a decisão sai da regra.
  4. 4
    Os cinco de alto riscoGlasgow abaixo de 15 em 2 horas, fratura exposta ou com afundamento, sinal de fratura de base, dois ou mais vômitos, 65 anos ou mais.
  5. 5
    Os dois de médio riscoAmnésia retrógrada de 30 minutos ou mais e mecanismo perigoso.
  6. 6
    Decidir e registrarTomografia se houver qualquer critério; alta com orientação escrita se não houver. Anotar no prontuário quais critérios foram checados.
Escada de mais de cinco degraus · mecanismo perigoso Sete critérios, em voz alta, um por um Primeiro a inclusão, depois os critérios

A regra canadense transforma a dúvida entre tomografia e alta em sete perguntas que qualquer médico faz em dois minutos, e ela só protege o paciente quando é aplicada a quem cabe dentro dela. Quem pula a etapa da inclusão acaba mandando para casa o anticoagulado sem imagem ou pedindo tomografia para todo mundo que bateu a cabeça.

Simulador de Pronto-Socorro

Agora é a sua vez de atender

Homem de 47 anos, caiu da escada de casa e apagou por alguns segundos. Chega andando, Glasgow 15, com dor de cabeça e um vômito no caminho. Você vai aplicar a regra canadense, critério por critério, e decidir entre tomografia e alta.

Atender o caso →
Dr. Hélio Pires
Dr. Hélio Pires
Cardiologista

A avaliação inicial do trauma, do crânio à coluna, é um dos eixos do curso de Urgências e Emergências da Aevora.

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Conteúdo de caráter educacional, dirigido a médicos e estudantes de medicina. As análises publicadas neste blog servem de apoio ao estudo e não substituem o julgamento clínico, a avaliação presencial do paciente nem as diretrizes oficiais das sociedades médicas.